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19 de agosto de
2012
No
filme Terra em Transe de
Glauber Rocha, o personagem Júlio Fuentes, interpretado por Paulo
Gracindo, que se associa a interesses estrangeiros monopolistas mas
mantém um bom relacionamento com os líderes políticos mais progressistas
e os movimentos sociais do país, rejeita as críticas que lhe fazem e
lamenta:
– Afinal, eu sou um homem de esquerda!
Na
época, a cena provocava gargalhadas na plateia. A esquerda – mesmo
dividida em um sem número de grupos: comunistas de tendência estalinista
e maoísta, trotskistas, esquerda católica, positiva e negativa, segundo
a classificação de San Tiago Dantas, etc. – era então considerada uma
tendência política comprometida com a transformação da sociedade, o que
se chocava com as posições ambíguas e a moral corrupta do empresário.
No
Brasil dos anos 60 do século passado, uma estratégia desenhada pelo
Partido Comunista estimava que era importante incorporar os empresários
cujo capital estava vinculado ao projeto de desenvolvimento econômico do
país – a chamada burguesia nacional – ao processo de mudanças das
estruturas políticas e sociais e, neste sentido, foram cooptados
industriais como José Ermírio de Morais, então senador por Pernambuco, e
Francisco “Baby” Pignatari.
A
continuidade desse processo, inclusive em muitos países da Europa,
permitiu que a esquerda pudesse camuflar por um longo tempo as suas
ambiguidades e vacilações, que persistiram até a queda do bloco
soviético. Desta forma, na Itália, na França, na Inglaterra, assim como
na Espanha e em Portugal depois da queda do franquismo e do salazarismo,
a esquerda exerceu o poder mercê em muitos casos de alianças espúrias
concebidas sob a influência de políticos inescrupulosos como Bettino
Craxi, por exemplo, e de figuras altamente contraditórias como François
Mitterrrand e Mário Soares. Ao longo de todo esse processo, apenas dois
grandes líderes – o sueco Olof Palme e o alemão Willy Brandt – mostraram
maior firmeza nas suas convicções, além de integridade e coerência
política. A ação dos serviços secretos norte-americanos levou, no
entanto, à saída dessas figuras da cena política e, no caso de Olof
Palme, ao seu próprio desaparecimento físico.
A
desintegração do bloco soviético – o “império do mal”, nas palavras de
Ronald Reagan – que se esfacelou sem dar um tiro sequer, acabou por
retirar à esquerda tradicional europeia qualquer perspectiva ideológica.
Não tendo mais com quem se aliar, já que o Partido Comunista não mais
existia, sucedeu então que – como nos filmes policiais em que o chefe
criminoso elimina o adversário mas poupa a vida dos sequazes e os coloca
a seu serviço – a velha esquerda, assim como a
nomenklatura do Leste Europeu, foi se abrigar sob as asas do
neoliberalismo hegemônico.
As
posturas pouco ortodoxas do PSOE espanhol, partido de tradição operária
e socialista que sob a liderança de Felipe Gonzalez traiu a sua origem e
se associou ao empresariado europeu e americano, a submissão do
trabalhismo inglês de Tony Blair, também de extração socialista, à
política genocida de George W. Bushinho, assim como o apoio do governo socialista de Lionel Jospin
à destruição da Iugoslávia, são alguns dos mais catastróficos exemplos
da falta de uma visão política coerente da esquerda no continente
europeu, o que não poderia deixar de levar a um natural desencanto da
população em suas aspirações de mudança e ao crescimento da direita, em
alguns casos com uma clara conotação nazi-fascista.
Buscando se aferrar ao poder a qualquer custo mas sem nenhum projeto
político que pudesse se contrapor à cartilha neoliberal, a esquerda do
velho continente adotou a bandeira da social-democracia de caráter
anticomunista e assumiu um discurso em que defendia a estrutura formal
da democracia burguesa.
Foi
desfraldando esse vago corolário ideológico que Fernando Henrique
Cardoso, um político entreguista e o maior farsante da história do nosso
país, pôde se eleger presidente da República e implementar um projeto de
doação dos ativos do Estado ao capital internacional traduzido em
privatizações financiadas com dinheiro obtido dos cidadãos e que
resultaram numa ampla desnacionalização da economia.
O
Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), fundado pelo
ex-presidente com outros emigrados do Partido do Movimento Democrático
Brasileiro (PMDB), já não mais se apresentava como de esquerda embora
alguns de seus membros houvessem inclusive participado da luta armada
contra o regime militar como membros de organizações comunistas.
Naturalmente, dada a nossa condição de colônia política e cultural da
Europa e dos Estados Unidos da América, o partido de Fernando Henrique
mimetizava o comportamento da esquerda de além-mar, que chegou a propor
inclusive uma Terceira Via como alternativa ao capitalismo e ao
socialismo.
Tal
proposta nunca se concretizou efetivamente e foi em razão de seu apego
fisiológico ao poder que os sociais-democratas apoiaram ferreamente a
desintegração da União Soviética, a divisão da Tchecoslováquia, o
bombardeio da Iugoslávia, a invasão do Afeganistão, a ocupação do Iraque
após a sua invasão pelos Estados Unidos, as guerras civis na Somália e
no Sudão, a brutal destruição da Líbia sob a égide da Organização do
Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e agora se preparam para desferir o
golpe final contra a Síria, uma outra nação soberana do Oriente Médio
que se opõe à política imperialista dos Estados Unidos e de Israel.
No
Brasil, depois de sucessivamente derrotado três vezes pelo PT, o PSDB
caminha celeremente para uma posição imobilista e reacionária, cada vez
mais próxima daquelas defendidas pela velha oligarquia do país. Por
outro lado, o PT que havia nascido ainda antes da derrocada do bloco
soviético como um partido devotado às transformações estruturais da
nação elegeu o seu líder máximo presidente da República em 2002 e, no
governo, adotou um programa político muito semelhante à administração
anterior.
Pressionado pelas acusações de corrupção e sob a ameaça de não se
reeleger em 2006, a administração Lula da Silva ampliou um projeto de
caráter assistencial que lhe possibilitou inclusive eleger a sua
sucessora, Dilma Rousseff.
Durante os sucessivos governos do Partido dos Trabalhadores, que chegou
a ser cognominado até de Partido dos Banqueiros, nunca o capital
financeiro foi tão beneficiado neste país, ao mesmo tempo em que sua
orientação enfatizou a política econômica baseada nas exportações de
matérias-primas, esvaziou o campo – agora entregue ao agronegócio –,
abarrotou as cidades de migrantes sem qualificação e enfraqueceu a
atividade industrial.
Essa
postura anticomunista permitiu que os primeiros movimentos contra a
globalização neoliberal fossem liderados pelos anarquistas, que no
passado haviam se confrontado com essa mesma esquerda tradicional e não
se deixaram contaminar por seu discurso panfletário. Foi assim que em
Seattle e em Gênova os velhos libertários – não acreditando nas miragens
da sociedade de consumo prometidas pelo neoliberalismo – se opuseram ao
modelo emergente que, desde o início, revelou deformidades e
distorções.
Observa-se hoje uma crescente erosão da base produtiva da nação e uma
contínua desnacionalização da indústria do país. De outra parte, a
antiga esquerda heróica brasileira dos anos 60 e 70, cooptada nos postos
de administração pública federal ou recebendo proventos decorrentes de
indenização por morte, tortura ou perseguição, busca apenas uma
reparação do Estado pelos sofrimentos infligidos pelo regime militar.
Com o passar dos anos, já não parece mais se dedicar à transformação da
sociedade. Por sua vez, a chamada Comissão da Verdade, criada para
satisfazer o clamor por transparência dos grupos políticos que foram
dizimados durante a ditadura, não está cumprindo a sua finalidade ao
realizar sessões públicas e secretas, o que indica que pode estar
havendo um encobrimento da informação. Já as organizações sociais como o
Movimento dos Sem-Terra e a União Nacional dos Estudantes, que fizeram
alguns acordos com o governo atual, se limitam a reivindicações
específicas.
As
propostas do politicamente correto
como os programas de favorecimento das minorias e os projetos paliativos
de inclusão social em uma sociedade altamente desigual ocupam hoje o
ideário de um setor da esquerda tradicional no Brasil, que vai até o
paroxismo de defender os erros de português em livros de gramática e a
língua mal escrita como justificativa para a produção de um estilo
populista de comunicação.
É
muito provável que chegaremos a um dia – talvez mais cedo do que se
pensa – em que o epíteto de esquerda, assim como a de social-democracia,
em total descrédito nos dias atuais, não signifique mais nada ou apenas
um conjunto de acepções associadas a um estilo de comportamento
melífluo, oportunista, traiçoeiro e sem escrúpulos.
No
Brasil, vai ficando mais claro o que o antropólogo Darcy Ribeiro
observou certa vez:
– O PT é a esquerda que a direita gosta.
Sérvulo Siqueira |