|
9 de janeiro de
2011
A
intempestiva posição assumida pelo presidente do Supremo Tribunal
Federal ao revogar uma decisão presidencial – autorizada pela própria
instituição
– configura a primeira crise política do governo Dilma
Rousseff. O episódio se tornou ainda mais delicado pela truculenta
intervenção de uma antiga potência colonial, hoje decadente e mergulhada
– segundo as palavras de um conhecido blogueiro italiano – numa
verdadeira berluscoma.
Embora seja a primeira depois da posse do novo governo, a atual
tentativa de desestabilização já havia sido precedida por ensaios
ocorridos antes de 1º de janeiro de 2011, que lembraram os
acontecimentos que antecederam a ascensão ao poder de um outro mineiro,
o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira.
Algumas situações históricas parecem muito semelhantes: tanto em 1955
como hoje a direita mais reacionária e entreguista acabava de sofrer a
sua segunda derrota consecutiva e todos sabemos que, quando isto
acontece, as oligarquias – desalojadas do poder, onde já vigem
encasteladas por séculos – se tornam incrivelmente violentas e costumam
recorrer a toda a sorte de atos de delinquência, desde assassinatos,
golpes de estado e até brutais desestabilizações que podem provocar atos
de separatismo e uma guerra civil.
Este
tem sido o modo de atuar da política externa americana que, a partir da
última década do século passado, levou ao fracionamento da antiga
Iugoslávia e hoje se empenha no enfraquecimento da unidade política do
Paquistão, Iraque e Irã. No momento, a estratégia do candidato derrotado
José Serra e de seus aliados consiste em desgastar politicamente a nova
presidente, com o objetivo de preparar um processo de impeachment no
curto prazo.
Além
de agir para reverter a decisão do ministro Peluso, que vem sendo
considerada por muitos juristas como um ato de transgressão da decisão
do próprio STF, que violou o princípio da separação de poderes e do
Estado democrático de direito, a nova presidente deve buscar de forma
rápida e eficaz a ampliação e o fortalecimento do apoio popular de seu
governo, agindo ao mesmo com firmeza e moderação para assegurar uma base
parlamentar que lhe assegure uma maior estabilidade política em um
parlamento essencialmente conservador e dominado por interesses
corporativos.
Até
agora, na linha conciliadora de seu antecessor, Dilma vem fazendo
composições à esquerda e à direita, principalmente à direita como
revelam as nomeações de políticos de reputação no mínimo duvidosa que
hoje recheiam o seu gabinete. Tão espantosas e abstrusas parecem ser
estas nomeações que muitos chegam a supor que a nova governante – numa
estratégia altamente maquiavélica – ao mesmo tempo em que incorpora
indicações polêmicas para saldar dívidas de campanha, retira atribuições
de alguns ministérios e passa a concentrar poder em outros, visando
garantir maior governabilidade à sua administração. Neste sentido, chama
a atenção o esvaziamento da esfera de influência política do
ministro-chefe da Casa Civil e o fortalecimento das áreas de atuação do
Planejamento e da Fazenda.
De
qualquer forma, fica cada vez mais claro que sem uma profunda reforma
política no Brasil que contemple uma fiscalização das atividades do
Judiciário, uma instituição que se caracteriza por sua extrema lentidão,
pouca eficiência e escasso respeito às instituições que deveria
defender, e dos meios de comunicação de massa –cuja absoluta ausência de
ética e de respeito à verdade dos fatos, além da baixa qualidade
profissional que apresentam– o projeto de um País novo e mais justo
ficará muito difícil de ser alcançado.
Sérvulo Siqueira
|