8 de outubro de 2022

O momento da verdade

Além do resultado do pleito, muitas incertezas cercam o segundo turno das eleições presidenciais que irão se realizar no próximo dia 30 de outubro.

Não deixa de causar inquietação que acordos por debaixo do pano venham ocorrendo entre figuras políticas cujas trajetórias contrariam as alianças que estão sendo celebradas. Apresentados sob uma aura de aparente confraternização, pode-se perguntar o que pensará o eleitor – já naturalmente suspeitoso das figuras envolvidas – desses acordos, que tendem na verdade a se constituir em verdadeiros cambalachos.

Quando, por exemplo, um golpista de 2016 e notório linha auxiliar do PSDB como Roberto Freire e Armínio Fraga, apóstolo do neoliberalismo e funcionário de George Soros, patrono das revoluções coloridas, se apressam em apoiar o vencedor do primeiro turno das eleições, antigo adversário em outros momentos, gestos como este são suficientes para provocar calafrios em qualquer pessoa de bom senso.

Não será surpresa se o incumbente no poder decidir explorar o fato, atribuindo estas espúrias alianças a um jogo sujo da velha política para impedir o seu projeto “renovador”.

Por outro lado, como ficará a candidatura de Lula da Silva se os seus novos aliados, que já demostraram não ter nenhuma confiança em seu programa de governo, exigirem a indicação prévia de um ministro da Economia vinculado ao grande capital e, portanto, contrário aos interesses das camadas mais pobres, que constituem a base de seu eleitorado?

Outra pergunta é como se comportará o povão no segundo turno de 30 de outubro, se o atual presidente conseguir convencer a população de que os novos aliados de seu adversário – Fernando Henrique, José Serra, Michel Temer, entre outros, que fracassaram em seus propósitos de melhorar a vida dos brasileiros – representam a continuação da velha política e que ele, O Mito, é a promessa de uma nova era para o Brasil?

Tão heterogêneo é este arco de alianças que muitos já se perguntam se isto não faz parte de um projeto – organizado em escala global – de tomada de poder. O economista Peter Koenig afirmou, em artigo publicado há alguns meses no site Global Research, que Lula da Silva está integrado aos planos do Fórum Econômico de Davos e seu projeto do Great Reset (A Grande Reconfiguração, em tradução livre). Koenig, que conhece os meandros do grande capital porque trabalhou por mais de 30 anos no Banco Mundial e na Organização Mundial de Saúde em projetos ligados à água e ao meio ambiente, chega a dizer que Bolsonaro corre o risco de ter o mesmo destino de dois outros chefes de estado da África, que foram fisicamente eliminados por sua oposição ao confinamento e à vacinação em massa embutidos na pandemia Covid-19.

Dado o seu passado de atividades ligadas ao grande capital, é possível que os políticos que agora apoiam Lula da Silva estejam vinculados ao Fórum de Davos e seu Great Reset, que contempla a instalação de uma ditadura em escala planetária controlada por meio das mais sofisticadas tecnologias digitais e da inteligência artificial de robôs.

Com seu imenso território rico em matérias primas e terras cultiváveis à mercê do agronegócio, o Brasil certamente teria um papel muito importante nesta nova ordem mundial como fornecedor de commodities e mão de obra barata para os grandes oligopólios mundiais, uma vez que este novo cenário não contempla mais a existência de nações.

Caso Lula não seja suficientemente persuasivo para convencer a população das boas intenções de seus novos aliados e Bolsonaro se revele mais habilidoso ao se mostrar como representante da antipolítica, muitos temem que esse projeto não encontre um grande apoio no governo do Brasil já que o atual presidente está mais alinhado com Donald Trump, que não é propriamente bem aceito pelos conspiradores de Davos, e poderá retornar ao governo dos EUA.

Corrupto e desonesto para muitos, defensor das causas populares para outros tantos, Lula emerge de um período de infortúnio em sua vida como o favorito, segundo as pesquisas, para ganhar as próximas eleições presidenciais.

Político habilidoso e bom negociador, sabe que terá que trilhar o difícil caminho que vai das aspirações de grande parte da população por uma vida melhor às pressões que sofrerá do grande capital. É certo que cedo ou tarde será cobrado por ambos os lados.

As opções que fizer o conduzirão a um momento da verdade em que será levado a perceber que não se pode, ao mesmo tempo, acender uma vela a Deus e outra ao Diabo.

A história registra que todo líder popular se depara em um determinado momento histórico com seu Rubicão – para lembrar o episódio relacionado a Júlio César em sua marcha para a Gália – em que se torna imperativamente necessário avançar ou recuar.

Neste instante, qualquer gesto possui um peso definido e pode chegar até a determinar o futuro de todo um povo.

Ou então, fica-se ao sabor das circunstâncias.

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Sérvulo Siqueira

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