03 de dezembro de 2025

A nova doutrina Monroe:

A América Latina para Donald Trump

 

 

Na última segunda-feira, dia 1° de dezembro, ocorreram dois cenários extremamente díspares no continente americano. Enquanto no hemisfério norte, o secretário da Guerra dos Estados Unidos publicava um cartoon com uma imagem sinistra em que soldados ianques destruíam barcos que supostamente traficavam drogas, no sul do continente uma enorme multidão se confraternizava em música e palavras de carinho com o presidente do país, acusado de chefiar uma organização criminosa. Se no país do norte o presidente que fazia a acusação ostentava uma popularidade muito baixa entre seus concidadãos, na parte sul o presidente acusado via sua popularidade crescer exponencialmente.

Eleito presidente dos States no final de 2024, Donaldo Trampo, conseguiu realizar uma proeza difícil de alcançar: escolheu um secretário de Estado mais medíocre do que o anterior, Anthony Blinken, e indicou como seu secretário de Defesa, que mais tarde alterou o nome da pasta para secretaria da Guerra, um antigo combatente da guerra do Iraque que se tornou animador de um programa de televisão e ostenta no braço direito uma tatuagem islamofóbica. Tudo indica que estes dois estúpidos personagens, Marco Rubio e Pete Hegseth, vem aconselhando Donaldo Trampo a se envolver em uma aventura militar que poderá incendiar toda a América Latina.

Se as ameaças de invasão da Venezuela se concretizarem, haverá provavelmente muita destruição porque esta é a especialidade da política bélica gringa, a aniquilação da infraestrutura dos países que se opõem ao seu diktat: escolas, hospitais, estradas, instalações industriais e até mesmo residência de moradores. No entanto, como tem ocorrido nos últimos tempos, terminarão ao fim e ao cabo sendo derrotados e na enxurrada deste fracasso, o governo de Donaldo Trampo, que com seus aspecto rotundo e poltrão se constitui em uma espécie de Jabha The Hutt da política norte-americana, irá para o fundo do poço.

Muitos acreditam que toda esta encenação no mar do Caribe é apenas mais uma bravata do folclórico presidente norte-americano, também conhecido pela sigla em inglês coo TACO (Trump Always Chikens Out), que em bom português poderia ser traduzida por Trump sempre amarela ou Trump sempre dá para trás.

De qualquer forma, em sua guerra psicológica contra o povo venezuelano, começam a aparecer as verdadeiras intenções do novo inquilino da Casa Branca: se apoderar das imensas reservas petrolíferas do país, avaliadas em 17 trilhões de dólares, que serviriam para aliviar o gigantesco déficit orçamentário dos Estados Unidos. Embora afirme que sua estratégia tem como objetivo combater o tráfico de droga para os Estados Unidos, esta é apenas uma fachada para um plano de expulsão da China, a destituição de gobernos socialistas que possam estabelecer relações com esse país, a garantia de mercados para corporações transnacionais e a conquista do acesso à abundância de recursos naturais da América Latina, incluindo 20% das reservas mundiais de petróleo, aproximadamente 25% dos metais estratégicos, particularmente cobre e lítio, e mais 30% da área de floresta virgem do mundo. 

Como se sabe, o Grande Irmão do Norte precisa obter a cada ano a quantia de três trilhões de dólares somente para pagar o serviço da sua dívida. Esta economia completamente decadente necessita agora desesperadamente de sangue estrangeiro para prolongar a sua agonizante situação.

Como o Irã está de certa maneira protegido pela China e a Rússia, a Venezuela emerge como o alvo próximo mais frágil aos olhos destes sedentos vampiros.

No entanto, nem tudo se apresenta assim tão fácil para Donaldo Trampo. Um número crescente de analistas militares e políticos dentro e fora dos States considera que uma tal operação de mudança de governo, chamada erradamente de mudança de regime, seria no mínimo demorada e teria poucas possibilidades de sucesso. Um espectro semelhante à guerras do Vietnã, que durou mais de 10 anos, e à guerra do Afeganistão, com 20 anos, que levaram à derrota dos ianques, é seriamente considerado no horizonte.

Por outo lado, muitos analistas também acreditam que toda a mobilização no Caribe que já dura mais de 22 semanas e na qual os gringos já envolveram mais de 10 mil marines, além de um contingente adicional de sete mil soldados, tem por objetivo iniciar uma ofensiva militar que levaria à conquista de toda a América Latina, inclusive o Brasil e o México, os principais países da região.

Os Estados Unidos teriam então sob seu controle uma imensa área com infindáveis recursos energéticos: terras raras, minerais, petróleo, agricultura abundante, bacias hidrográficas e novas alternativas de energia como vento, sol, etc.

Um dos principais idealizadores deste mirabolante plano é o atual secretário de Estado, Marco Rubio, também conhecido como “Narco” Rubio por suas notórias ligações com o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão pelo tráfico de cocaína e armas para os Estados Unidos e que acaba de ser indultado por Donaldo Trampo. Rubio, um medíocre político descendente de exilados cubanos, planeja retomar o controle de Cuba após mais de 66 anos de regime socialista. Para a consecução deste plano, o atual secretário da Guerra, Pete Hegseth, vem cuidadosamente mudando os chefes militares e substituindo-os por nomes leais à política de Trampo. Há o risco de que os novos chefes não ajam com a mais completa isenção e estejam fornecendo informações inadequadas que poderão levar esta nova empreitada colonialista a mais um fracasso militar. 

Os EUA têm o hábito de acusar seus adversários de fazer exatamente aquilo em que se tornaram especialistas. Maiores promotores do terrorismo mundial – veja-se a criação da Al Qaeda, do Estado Islâmico, dos Mujaiedeen Al-Qalq e de outras incontáveis organizações do gênero – afirmam que lutam contra o terrorismo. Agora, ameaçam invadir a Venezuela sob o argumento de que vão combater o tráfico de drogas, quando se sabe que os bancos norte-americanos são as instituições que mais se beneficiam da lavagem do dinheiro da droga.  

Para realizar suas guerras de conquista e alimentar o complexo industrial-militar do país, precisam fabricar falsas bandeiras, acusações inverídicas contra países que quase inevitavelmente levam a ataques indiscriminados a seus territórios e população. A história recente do “Grande Irmão do Norte” está repleta desses episódios que ocorrem desde o incidente com o USS Maine em 1898, que deu  início à sua guerra contra a Espanha.

Também não podem ser esquecidos, entre outros, nesta lista, a Operação Mangosta (1960), em que seriam realizados ataques a prédios públicos nos Estados Unidos, atribuídos à Cuba, para forjar o pretexto de uma invasão da ilha; o incidente no Golfo de Tonkin (1964) alardeado para justificar o ataque ao Vietnã do Norte, assim como as propaladas e nunca encontradas armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que levaram à invasão do Iraque em 2003. Nenhuma dessas acusações foi comprovada, assim como as alegações de que os soldados iraquianos invadiam os berçários no Kuwait e matavam as crianças, durante a Guerra do Golfo de 1990. 

A nova falsa bandeira, que está sendo levantada no momento consiste em mais uma mentira: a acusação de que a Venezuela é a maior exportadora de drogas para os Estados Unidos quando se sabe amplamente que este país acabou com praticamente todo o tráfico em seu território. Sem melhores argumentos, os States alegam agora que estão sendo invadidos pela população da Venezuela que – premida pelos milhares de sanções que os gringos aplicam sobre o país – é forçada a emigrar em busca de trabalho.

Exercendo por conta própria o papel de xerife justiceiro, o atual secretário da Guerra dos Estados Unidos publicou um cartoon em que se vê soldados pulverizando pequenas embarcações. A postura tem levantado críticas no seio das Forças Armadas norte-americanas, que interpretam a decisão de Hegseth como um ato de execução extrajudicial.

Nem mesmo na DEA (Drug Enforcement Agency), a agência encarregada do combate ao tráfico de drogas dos EUA, a postura do secretário foi bem recebida. Autoridades atuais e antigas das Forças Armadas dos EUA e da DEA expressaram dúvidas de que todas as 11 pessoas a bordo da primeira embarcação estivessem envolvidas com o tráfico.

Em seus comentários, eles observaram que a embarcação em questão, uma lancha rápida com quatro motores, é comum na região e normalmente é tripulada por uma pequena equipe – talvez um mecânico, um ou dois pilotos e outra pessoa responsável pela segurança, conforme afirmou um agente da DEA.

Segundo o agente, “mais pessoas a bordo significa menos espaço para a venda de drogas”.

Entre as muitas criações da saga Guerra nas Estrelas, de George Lucas, o personagem Jabha The Hutt é um dos mais peculiares. Com seu corpo volumoso, que mais parece o de uma lesma ou um gigantesco sapo, Jabha é um gangster com ampla atuação na política e nos negócios. Apesar de seu tom aparentemente cordial, pode-se tornar às vezes extremamente cruel. Além de alguma semelhança física com Jabha The Hutt por seu aspecto rotundo, Trampo tem se mostrado recentemente extremamente agressivo com seus adversários, chegando a ameaçar políticos democratas de morte, prometendo obliterar o Irã, ameaçando anexar algumas regiões do planeta como o Panamá e a Groenlândia, sem contar as constantes invectivas contra a Rússia por esta não aceitar imposições em suas propostas de paz.

Embora haja muitas controvérsias em relação ao fato de Nero ter posto fogo em Roma, alguns historiadores registraram que o imperador tocava sua harpa enquanto contemplava as chamas que consumiam a cidade.  Sabe-se apenas que para eludir as acusações, Nero atribuiu o incêndio aos cristãos e ordenou que alguns fossem jogados aos cães, enquanto outros foram queimados vivos e crucificados.

Não se sabe o que poderá fazer o Nero dos dias de hoje, que mantém com o original algumas semelhanças, entre elas um delirante narcisismo, mas – por via das dúvidas – todos os latino-americanos precisam a partir de agora tomar muito cuidado.

 

                                                                                    Sérvulo Siqueira

 

 

 

 

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