20 de dezembro de 2010

O programa Pontapé Inicial da ESPN Brasil, apresentado por José Trajano e Eduardo Monsanto, exibiu no último domingo uma extensa entrevista com Milton Nascimento. Ao longo do encontro de mais de uma hora, nenhuma menção foi feita ao documentário Milagre dos Peixes, registro cinematográfico da mais importante apresentação do músico em toda a sua carreira.

Com o objetivo de preservar o conhecimento histórico e resguardar a verdade dos fatos, seguem algumas informações esclarecedoras, narradas na terceira pessoa:

Em 1974, Milton Nascimento – ainda no começo de sua trajetória como cantor e compositor – decidiu apresentar o espetáculo Milagre dos Peixes Ao Vivo no Teatro Municipal de São Paulo e no Anfiteatro da USP. Em conversa com Sérvulo Siqueira e seu parceiro Márcio Borges, dois amigos dos tempos de Belo Horizonte, nasceu a idéia de registrar em película cinematográfica os sons e as imagens do evento.

Por falta de recursos, o filme – que também compreendia fatos da vida do cantor – não pôde ser concluído. Durante 11 meses os negativos permaneceram na geladeira da casa de Márcio Borges, sem serem revelados. Sérvulo Siqueira decidiu então obter um empréstimo no banco para viabilizar ao menos a edição do material que havia sido filmado.

Uma cópia – com duração de cerca de 35 minutos – foi então exaustivamente exibida em cineclubes, faculdades, shows musicais (inclusive durante duas apresentações de Edu Lobo na Concha Verde da Urca, que contaram com a presença de mais de duas mil pessoas), sendo também mostrada no exterior. Em 1979, aproveitando a Lei do Curta-Metragem, foi realizada uma montagem – chamada de San Pablo – com duração de 9 minutos, que percorreu o País como complemento de filmes estrangeiros até 1984.

Em 1987, o documentário de 35 minutos foi escolhido para compor uma mostra de 100 filmes brasileiros exibida na França durante todo o ano. Em novembro de 1996, Márcio Borges cedeu todos os direitos de produção da obra a Sérvulo Siqueira, seu parceiro na direção, que havia preservado por mais de 22 anos a integralidade física dos negativos do filme.

No ano de 2000, uma nova versão – agora incorporando os elementos da tecnologia digital – foi editada por Sérvulo Siqueira, sendo remetida uma cópia ao cantor e compositor Milton Nascimento por intermédio de seu parceiro Fernando Brant. Segundo afirma a empresária do compositor, a cópia – ainda no formato VHS – infelizmente jamais chegou às mãos do destinatário. Em setembro de 2003, um novo exemplar foi finalmente entregue a Milton Nascimento por um mensageiro.

No início de 2004, Marilene Gondim, então empresária de Milton Nascimento, convidou Sérvulo Siqueira para uma reunião no escritório da Tribo Produções Artísticas, empresa de Milton, com o objetivo de tentar viabilizar a conclusão do projeto. No mesmo ano de 2004, duas propostas apresentadas por via da empresária foram recusadas pelo produtor e diretor do filme porque implicavam na cessão integral dos seus direitos de autor e de produtor.

Em novembro de 2005, Sérvulo propõe a Marilene um encontro com Milton para lhe apresentar um DVD que havia produzido, contendo os dois filmes já montados e um clipe que seria exibido na Internet. Sob a alegação de falta de tempo e excesso de compromissos do cantor e compositor, a reunião nunca foi marcada.

Em abril de 2008, Sérvulo Siqueira, diretor e produtor do filme e último remanescente da equipe original, conclui Cantos do Paraíso, uma versão ampliada do filme com 54 minutos de duração, que apresenta duas músicas não incluídas na edição de 1975.

Que razões teria então Milton Nascimento para sepultar prematuramente o filme? Porque nem sequer menciona o trabalho, que envolveu de forma tão direta seu primeiro parceiro, Márcio Borges? Passados mais de 36 anos, o filme – que registrou um momento luminoso da grande era de ouro da música popular brasileira dos anos 60 e 70 – permanece numa condição híbrida, conhecido e visto por muitos embora nunca tenha sido lançado em sua versão integral.

Com vistas a modificar esta situação, o produtor e diretor do filme trabalha no momento para ter a possibilidade de realizar uma completa remasterização ótica do negativo original, o que preservaria esse documento para as futuras gerações.

 

Sérvulo Siqueira