13 de dezembro de 2004
 


A fabricação do consenso


 

Torna-se visível neste momento um claro plano de deposição de governos constitucionais na América Latina. Este plano está sendo organizado por meio de mentiras, sabotagens, táticas de provocação e outros ardis e não descarta inclusive a utilização de assassinatos programados.
 

Não é a primeira vez que semelhantes atos são praticados. Seu objetivo é permitir que as potências hegemônicas continuem a se beneficiar de maneira quase exclusiva das riquezas estratégicas do subcontinente.
 

Esses processos já foram empregados inúmeras vezes no passado e seus desdobramentos criaram resultados amplamente favoráveis aos criminosos que os praticaram. Entre os exemplos mais recentes podem ser contabilizados a derrubada do presidente constitucional chileno Salvador Allende, em 1973, e a derrota do governo sandinista da Nicarágua em 1990.
 

As técnicas para a execução deste plano de caráter genocida envolvem uma aliança das oligarquias locais com os países que dominam a região e compreendem, entre outros, o boicote econômico (desabastecimento, fuga de capitais, etc.) e campanhas de difamação e intrigas difundidas em veículos de comunicação com o objetivo de criar um grande consenso para ações de derrubada de governos legítimos, que levem à instauração de um fato consumado de caráter ditatorial em que a velha e opressiva ordem latino-americana seja restaurada.
 

Esta velha ordem perdurou, como sabemos, por quase 500 anos. Durante esse longo período todos os nossos mais preciosos recursos: minerais de primeira, segunda e terceira gerações como ouro, prata, pedras preciosas, berilo, titânio, quartzo, petróleo, madeira de lei, um imenso volume de capital líquido e toda a sorte de especiarias foram escoados para a Europa e os Estados Unidos, alimentando a prosperidade e a arrogância dos colonizadores.
 

No momento em que a América Latina retoma mais uma vez a luta pela sua autonomia e independência diante do colonialismo norte-americano, o objetivo da política de desestabilização de países como a Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua é criar um consenso para a volta das práticas brutais de dominação que existiram no passado.
 

Esses procedimentos – que persistiram ao longo de todo o século 20 – se caracterizaram pela repressão generalizada executada de forma impiedosa por regimes fantoches implantados pelos Estados Unidos, por meio de detenções ilegais e torturas levadas a cabo por ditaduras militares ou civis, e que tornaram possível a manutenção dos velhos privilégios que tanto sofrimento causaram aos habitantes da região.
 

Com exceção de uma pequena minoria de parasitas, as diversas nações da América Latina não desejam mais a volta destes vergonhosos eventos e de seus nefastos agentes.
 

Ontem como hoje, as técnicas de desestabilização não parecem ter se alterado, apenas as táticas mudam de acordo com a conveniência das potências usurpadoras da soberania dos países da América Latina.
Historiadores e jornalistas já registraram e os mais velhos com boa memória devem se recordar dos fatos que antecederam o golpe de Estado desfechado pelas forças armadas contra o governo constitucional de João Goulart em 1964, no Brasil.
 

Esse episódio representou a culminação de um longo processo de cooptação de um setor direitista do Exército Brasileiro – cujo epicentro se localizava na Escola Superior de Guerra, organismo marcado ideologicamente pela Escola das Américas, criada pelos Estados Unidos e então instalada no Panamá – articulado pelas oligarquias brasileiras por via de um partido da chamada direita liberal, a União Democrática Nacional (UDN) e seus epígonos mais destacados, especialmente o então governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda.
 

Vários acontecimentos, cuja orquestração depois se revelou evidente e claramente premeditada, levaram à derrocada do governo de João Goulart, culminando com um golpe militar que instalou uma ditadura que perdurou por 21 longos anos e se transformou numa verdadeira tragédia para o país.
 

Na perspectiva que o tempo de 45 anos dá a esses acontecimentos, vê-se que episódios semelhantes nunca deixaram de se repetir ao longo de todos os processos de desestabilização ocorridos desde então no Uruguai, na Argentina, no Peru por duas vezes, sem contar o caso mais típico do Chile, quando um projeto de socialismo democrático foi brutalmente interrompido. Após uma greve de caminhoneiros que durou quase um ano, fabricada e financiada por uma companhia telefônica dos Estados Unidos, a contínua falta de alimentos, tumultos organizados de rua e assassinatos-chave com o objetivo de provocar pânico, campanhas sistemáticas de desinformação na imprensa comandadas pelo jornal El Mercurio, além de vários outros golpes sujos, instaurou-se um clima de caos generalizado no país, que levou o governo de Salvador Allende ao descrédito e criou o almejado consenso entre a população – especialmente no seio da classe média – para o golpe, planejado em Washington por Henry Kissinger e comandado, no Chile, por Augusto Pinochet.
 

No Brasil, não faltaram também episódios grotescos como o das “mal amadas”, mulheres que empunhavam terços e rosários e seguiam fanaticamente o líder civil da oposição, Carlos Lacerda. Esse movimento levou às famosas Marchas com Deus pela Liberdade contra o Comunismo que – como se pregava histericamente – estaria tomando o Brasil. Ações coordenadas criaram, de forma simultânea, um clima de pânico entre a população que – combinado a greves dos setores de transportes e de outros serviços básicos e a uma insurreição na Marinha, que mais tarde se provou haver sido preparada pela Agência Central de Inteligência (CIA), organismo de espionagem americano – produziram o consenso necessário para que, finalmente, uma parte substancial da classe média acreditasse que a intervenção das forças armadas restabeleceria a paz e a ordem. Quando essa “paz e ordem” foi restabelecida, a um custo que se revelou muito alto para os direitos humanos e as liberdades democráticas, verificou-se que tudo não havia passado de uma grande encenação para encobrir os objetivos reais: criar uma nova ordem e evitar que o Brasil se transformasse num grande e independente país.
 

Apesar da repressão generalizada que se seguiu, do número cada vez crescente de desaparecidos – que chegou a atingir a soma de vinte mil cidadãos – a Marcha da Família com Deus pela Liberdade nunca mais voltou às ruas para exigir a restauração dos direitos extintos.


 

Sérvulo Siqueira