6 de agosto de 2004

As ilusões da imagem
 

Uma harmonia invisível é mais intensa que outra visível.
                                                                          Heráclito 

 

Após ter atravessado séculos como uma representação simbólica do real, a imagem chegou ao século 20 como a forma mais evoluída do realismo plástico. O cinema e a televisão irão exprimir de modo mais convincente essa obsessão ardente de verossimilhança.
 

É costume se dizer que foi o líder revolucionário Vladímir Ilitch Lênin quem primeiro vislumbrou as possibilidades carismáticas do cinema. No entanto, ainda em 4 de julho de 1917, o Chefe do Estado-Maior da Alemanha, General Erich Ludendorf, já alertava o Ministério da Guerra do Império, em Berlim, para o fato de que a guerra demonstrou a superioridade do cinema como meio de informação e persuasão: “Os filmes não perderão sua importância durante o resto desta guerra como meio de convencimento político e militar”.
 

Porém, foi o poeta Vladímir Maiakóvski quem melhor proclamou a relação entre o cinema e o nosso século, em manifesto publicado em 1922: “Para vocês, o cinema é espetáculo. Para mim, é quase uma contemplação do mundo. O cinema é o fator do movimento. O cinema é o renovador das literaturas. O cinema é o destruidor da estética. O cinema é a ausência do medo. O cinema é o esportista. O cinema é o semeador das ideias”.
 

Na verdade, nenhuma outra linguagem deste século esteve tão intimamente ligada ao nosso modo de ser quanto a chamada Sétima Arte. Desde o desabrochar da Segunda Revolução Industrial – com os Irmãos Lumière e a chegada do trem à estação ferroviária – às invenções futuristas de Georges Méliès e sua Viagem à Lua, passando pelas duas Grandes Guerras, a Revolução Bolchevique, o triunfo e a derrocada do nazismo e do fascismo, a Guerra Civil Espanhola, a bomba atômica, as lutas libertárias do Terceiro Mundo, os novos padrões de comportamento com sua moral permissiva, a alucinante erupção do rock e dos Beatles, o Woodstock, as drogas e a contracultura, e até mesmo a nova padronização do tênis, do jeans e da T-shirt, tudo enfim passou em nossa era pela tela caleidoscópica desta gigantesca usina de sonhos.
 

Ao mesmo tempo em que alimentou o universo imaginário do homem do nosso século e introduziu em seu inconsciente, às vezes de maneira subliminar, as noções da simultaneidade de eventos, da descontinuidade de tempo e de espaço, da aceleração da velocidade e da câmera lenta – através da montagem visual alternada e de atração – das fusões e das superimpressões, da sugestão de volta ao passado e da projeção para o futuro, além da criação de novas portas de percepção para o sonho e a fantasia, o cinema contribuiu para a planetarização do nosso espaço ao nos trazer hábitos, costumes, idiomas, indumentárias, gestos e peculiaridades de culturas e seres das mais distantes regiões da Terra, no momento em que a informação é o bem mais precioso de que dispomos.

 

No início da década de 50, em resposta a uma enquete da Rádio Suíça sobre a possibilidade de o teatro reproduzir o mundo atual, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht afirmou que isso somente poderia acontecer se o teatro fosse capaz de representar um mundo suscetível de ser modificado.

 

Soube o cinema representar as intensas transformações da nossa época? Teria a Arte do Movimento capturado com fidelidade as grandes mudanças por que passou o nosso tempo? No mesmo manifesto publi-cado em Moscou, em 1922, Maiakóvski já advertia: “Mas o cinema está doente. O capitalismo lhe enevoou com ouro os olhos. Hábeis empresários conduzem-no pela mão através das nossas cidades. Recolhem dinheiro, titilando o coração com assuntinhos chorosos”. Entretanto, ao propor a teoria da montagem de atrações como a grande síntese dialética da imagem, Serguei M. Eisenstein acreditava que “o dualismo na esfera dos sentimentos e da razão deve ser completamente superado por esta forma de arte. É necessário devolver ao processo intelectual o seu fogo e a sua paixão, para submergir o modo abstrato de pensamento na matéria fervente da realidade”.
 

A busca de um cada vez maior realismo do som e da imagem levou, algumas décadas depois, à parafernália eletrônica de efeitos especiais dos filmes americanos e à explícita lógica de um Império dos Sentidos, por exemplo, enquanto cabia ao “cinema pobre dos jornais de atualidades apagar as suspeitas da presença de sangue e lágrimas, assim como uma calçada é lavada quando é tarde demais e o exército já atirou na multidão”, como observa Jean-Luc Godard em seu História(s) do Cinema.

 

O final do século 20 marca também o oblívio do cinema e de seus jornais da tela como grande arma de propaganda. É a televisão que vai acelerar o fim da intervenção americana na Indochina. As guerras do Vietnã e do Iraque – transmitidas ao vivo e simultaneamente – vão permitir a um cidadão norte-americano assistir um chefe de polícia abrir um rombo na cabeça de um prisioneiro em plena via pública enquanto bebe uma lata de cerveja na sala de estar da sua casa ou contemplar uma impressionante demonstração da mais sofisticada tecnologia em bombardeios aéreos, como se fossem jogos de videogame.
 

E não é por acaso que o rádio e a televisão foram considerados como armas de guerra na Iugoslávia, enquanto os aviões invisíveis da OTAN atiravam contra retransmissoras e antenas parabólicas.
 

O palimpsesto se transformou em palinódia. O final do século 20 e o início do novo milênio estabelecerão o começo do descrédito da imagem como a primordial representação do real. O uso abusivo dos poderes técnicos de prestidigitação visual, a saturação dos fakes e dos clones fabricados, a encenação política montada para o Jornal das 8 acabaram por comprometer o falso realismo da indústria do entretenimento.
 

Como nos lembra Godard: “E assim, por quase 50 anos as pessoas da câmara escura, das salas mal iluminadas, queimaram o imaginário para esquentar a sua realidade. Agora, a realidade está se vingando e exige lágrimas verdadeiras e sangue verdadeiro”. 

                          

Sérvulo Siqueira