Doralda: uma leitura dramática de Dão-Lalalão do Corpo de Baile de João Guimarães Rosa

 

Chegava a casa, abria a cancela, chegava a casa, desapeava do cavalo, chegava em casa. A felicidade é o cheio de um copo de se beber meio-por-meio; Doralda o esperava. Podia estar vestida de comum, ou como estivesse: era aquela onceira macieza nos movimentos, o rebrilho nos olhos acinte, o nariz que burla — parecia que a roupa ia ficando de repente folgada, muito larga para ela, que ia sair de repente, risonha e escorregosa, nua, de de dentro daquela roupa. Estavam deitados; um cachorro latia em alguma parte; Soropita tinha suas armas, o revólver grande debaixo da cama, o oxidado, o "crioulo", ou a automática, debaixo do travesseiro. Se era nas éguas, chuviscava lá fora, a gente seguia o merecido empapar da terra, o demolhar das grandes folhagens. Agora, era a seca, o friinho infeliz, que enrugava tudo. Doralda lá, esperando querendo seu marido chegar, apear e entrar. Ao que era, um pássaro que êle tivesse, de voável desejo, sem estar engaiolado, pássaro de muitos brilhos, muitas côres, cantando alegre, estalado, de dobrar. Chegar de volta em casa era mais uma festa quieta, só para o compor da gente mesmo, seu sim, seu salvo. De tão esplêndido, tão sem comparação, perturbando tanto, que sombreava um mêdo de susto, o receio de devir alguma coisa má, desastre ou noticia, que, na última da hora, atravessasse entre a gente e a alegria, vindo do fundo do mundo contra as pessôas

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