Psicologia Transpessoal

 

Pierre Well, Anthony Sutlch, Lawrence Le Shan, Thomas B. Mulholland, Raymond Prince, Charles Savage, Stanislav, Grof. Pequeno Tratado de Psicologia Transpessoal - cinco volumes. I: Cartografia da consciência humana, 98 pg., Cr$ 40,00; II: Mística e ciência, 122 pg., Cr$ 50,00; III; Psicofisiologia da consciência cósmica, 106 pg., Cr$ 45,00; IV: Experiência cósmica e psicose, 142 pg., Cr$ 60,00; V: Medida da consciência cósmica, 80 pg., Cr$ 35,00. Estudos psicológicos. Tradução de Ricardo de Britto Rocha. Editora Vozes.

Realizado no Brasil no início do mês de junho, o IV Congresso Internacional de Psicologia Transpessoal trouxe, além da presença luminosa do psiquiatra Ronald Laing, a discussão das visões orientais e ocidentais da morte, o debate sobre a utilização de drogas psicodélicas na terapia psiquiátrica, a importância do conhecimento da vida pré-natal e outros temas pouco ortodoxos para a psicologia tradicional. Enquanto isso, a Editora Vozes preparava a edição dos cinco pequenos volumes do Pequeno Tratado de Psicologia Transpessoal, reunindo trabalhos esparsos publicados em geral sob o patrocínio da revista norte-americana Transpersonal Psychology e com direitos de edição revertidos em beneficio da Síntese (Sociedade de Integração Transpessoal, Estrutural. Social e Energética de Minas Gerais, com sede em Belo Horizonte).

Nascida na década de 60, sobretudo nos Estados Unidos, e influenciada pela penetração que as doutrinas orientais - especialmente o budismo zen, através da propagação de Alan Watts, Suzuki e outros - alcançaram a principio no seio do que se denominou a "contracultura" e mais tarde no coração do próprio pensamento ocidental e em plena era de experiências extra-sensoriais com ácido lisérgico, mescalina, peyote e outras substâncias alucinógenas, a Psicologia Transpessoal constitui um esforço, alguma vezes pouco rigoroso e em outras ocasiões com nítidas tendências sob influência de técnicas psicométricas e neobehavioristas. Ao menos, esta é a conclusão que se extraí da leitura do Pequeno tratado da Editora Vozes, com os seus heterogêneos modelos de comunicação. No seu corpus, um digesto com a função básica de divulgação de um ramo da psicologia pouco conhecido no Brasil, distinguem-se cinco temas, um em cada volume: Cartografia da consciência humana (I), Mística e ciência (II), Psicofisiologia da consciência cósmica (III), Experiência cósmica e neurose (IV) e Medida da consciência cósmica (V).

Incluída na Coleção Psicologia Transpessoal, cuja orientação editorial está sob os cuidados do Dr. Pierre Weil, a série começa, em seu primeiro volume, com um artigo escrito justamente pelo Dr. Weil, intitulado As fronteiras da evolução humana, em que o especialista procura estabelecer as chamadas experiências "místicas" ou "cósmicas" como o objeto de estudo da escola, além de definir alguns critérios para discriminar a ocorrência do fenômeno e seus conceitos básicos. Após uma rápida resenha das características que determinam "o homem maduro" e suas qualidades, o Dr. Weil, clinico estabelecido em Belo Horizonte, chega à definição de consciência cósmica, que "seria uma regressão (ou evolução) a uma dimensão fora do tempo-espaço, mais ampla do que a que é percebida pelos nossos cinco sentidos limitados, no nível da potencialização energética tal como os físicos a concebem". Seu apoio psicológico seriam "a glândula pineal e a memória celular", e ela representaria "uma volta consciente ao estado de sono profundo".

Na análise de fenômenos e estados de percepção cujas conseqüências já foram estudadas pela psicologia oriental, os pesquisadores não deixam de lado as experiências místicas, e alguns comentários incluídos no Pequeno tratado se detém no estudo de textos de Santa Teresa de Ávila, como acontece em Estados e conceito de regressão, de Raymond Prince e Charles Savage (volume IV) e numa análise comparativa entre percepções, no trabalho Físicos e místicos: semelhanças na visão do mundo, de Lawrence Le Shan (volume II). A proposição visa - embora com pouco aprofundamento e rigor duvidoso - constatar certas coincidências entre as percepções místicas de religiosos como Meister Eckhardt e físicos como Max Planck, ou entre o budismo e a ciência moderna, cujas similitudes são apontadas por Werner Heinsenberg.

No volume III, onde se trata da Psicofisiologia da consciência cósmica, discute-se o ritmo alfa occipital, conhecido pelos eletroencefalografistas e pelos pesquisadores do cérebro como "o ritmo cerebral mais visível das pessoas normais". Segundo Thomas B. Mulholland, autor do artigo Você pode realmente se ligar com o ritmo alfa?, desta descoberta decorreu a idéia de que o ritmo alfa se associa a "estados de consciência" especiais e pode ser fator de alívio para problemas fisicos e mentais. Ressalva o articulista, entretanto, que este movimento não deve ser confundido com a pesquisa cientifica genuína ou com os estudos das mudanças psicológicas e fisiológicas que ocorrem durante os vários estados e exercícios do ioga e do zen e de outros tipos de meditação. Sua conclusão é de que pouca coisa pode ser dita a respeito; "Até agora nada foi provado, e a resposta não pode ser encontrada sem ulteriores pesquisas cientificas sobre este importante tópico".

Dos cinco volumes, o mais bem fundamentado — e também o com maior número de páginas — é o que discute as relações entre Experiência cósmica e psicose, compreendendo entre outros, ensaios sobre Misticismo e esquizofrenia, um estudo sobre as experiências místicas de Santa Teresa e de alguns pacientes psiquiátricos, realizado sob os influxos das teorias de Ronald Laing; e Estados místicos e o conceito de regressão, onde por meio de estudos sobre narrativas e confissões de Santa Teresa de Ávila, Plotino, Jacob Boehme e Edgar Allan Poe, estabelece-se o conceito de regressão, visto nos seus termos mais simples como "um retorno a um nível anterior de funcionamento". Segundo os autores do estudo, este conceito pode oferecer uma ligação plausível entre as psicoses e os estados místicos, na medida em que "uma psicose é uma retirada forçada, como em muitos casos um retorno incompleto a um estado místico é uma retirada e um retorno controlado".

Sem pretender realizar uma abrangência quantitativa de todos os temas discutidos nos volumes, pode-se afirmar que o ensaio de Stanislav Grof, um renomado psiquiatra tcheco hoje vivendo nos EUA, é um dos mais interessantes. Com o titulo Variedades das experiências transpessoais - observações da psicoterapia com LSD, seu artigo, publicado no Journal of Transpersonal Psychology, relata um conjunto de experiências que hoje somam mais de 20 anos de pesquisas com ácido lisérgico em duas mil sessões psicodélicas dirigidas pessoalmente pelo cientista, que também teve acesso ás gravações de mais de 1300 sessões promovidas por colegas. Realizando sessões com pacientes portadores de psiconeuroses sérias e com problemas psicossomáticos de esquizofrênicos, tarados sexuais, viciados em narcóticos, além de psiquiatras, estudantes, pintores, músicos, filósofos, cientistas, padres, teólogos e uma pequena parcela de pacientes se defrontando com a morte iminente, Stanislav Grof organiza uma esclarecedora descrição e discussão de exemplos clínicos. Pode então fixar várias modalidades do que chama de "experiências transpessoais", agrupadas em duas grandes categorias: 1. "Extensão (ou expansão) experiencial dentro da estrutura da "realidade objetiva", que se subdivide em "expansão temporal da consciência" e "expressão espacial da consciência"; e 2. "Extensão (ou expansão) experiencial além da estrutura da realidade objetiva".

O quinto volume, com o tema Medida da consciência cósmica, compreende estudos acerca da incidência das experiências místicas sobre as dimensões da experiência meditativa e termina com uma pesquisa, realizada na Universidade Federal de Minas Gerais por Pierre Weil, Luiz Flávio Couto e Suzana Ezequiel da Cunha sobre a consciência cósmica e suas variáveis. Todos os três artigos, como de resto muitos outros ao longo deste Pequeno tratado de psicologia transpessoal, não conseguem camuflar suas origens muitas vezes obscuras e tecnicistas: uma vez que é difícil ver a Psicologia Transpessoal como um todo orgânico, suas raízes tanto podem ser o resultado de uma tentativa de organização das vogas orientalistas recentemente incorporadas às "pirações" de acid-heads, como o revolvimento recente operado dentro da própria epistemologia ocidental. Por outro lado, a Psicologia Transpessoal - tal como os pequenos volumes editados nos revelam - ainda paga um grande tributo ás correntes neobehaviorístas e skinnerianas, cujo estigma tecnicista se demonstra claro. Esta contradição parece estar no próprio nascimento desta nova escola, cuja metodologia ainda não está bem explicada.

 

Sérvulo Siqueira

 

Resenha publicada no jornal O Globo, em 24 de setembro de 1978