As filmagens de O Caso Cláudia

Qualquer semelhança não é mera coincidência

 

Começaram na semana passada e deverão prosseguir até o dia 15 de fevereiro, as filmagens de O caso Cláudia, uma produção da Artenova Filmes dirigida por Miguel H. Borges. Estimada em Cr$ 8 milhões, a produção representa a primeira investida de uma editora de livros, que começou o ano passado a distribuir filmes estrangeiros e agora entra na produção nacional. Com um elenco numeroso – constituído em grande parte de atores de televisão – o trabalho deverá estar pronto em abril.

O personagem principal do filme é, segundo seu diretor, a própria sociedade, investigada através de vários locais no Rio de Janeiro e arredores. Há outros 20 personagens, muito deles reais e verdadeiros, ao longo da história. Alguns, encobertos por nomes fictícios, são: o implicado Mansur, representado por Luiz Armando Queiroz; o repórter Seixas, interpretado por Carlos Eduardo Dolabela; o investigador Guerra, por Roberto Bonfim; o industrial Otto Dorf, por Cláudio Corrêa e Castro; seu filho Pierre, por Jonas Bloch; o traficante Fernando, por Nuno Leal Maia; o patologista, por Moacyr Deriquém; o pai de Flávia, por Rogério Fróes, e Flávia, por Kátia D'Ângelo.

 

Na quinta-feira, enquanto um grupo de jovens integrava o cenário da Prainha, onde seria rodada a seqüência 39, uma câmara equipada com blimp - usada para prevenir a interferência de som externo na gravação em som-direto registrava sua movimentação na areia. Uma baixa luminosidade indicava, às 10 horas da manhã, um prenúncio de mau tempo e problemas para as filmagens na parte da tarde. A seqüência a única a ser rodada durante o dia encenaria o encontro entre Flávia (Kátia d'Ângelo), uma jovem amiga de Cláudia Lessin e Fernando (Nuno Leal Maia), traficante de tóxicos incumbido pela sua gang de estabelecer um contato afetivo com a garota e criar o intercâmbio da droga para outros grupos.

O que teria a Prainha a ver com o assassinato de Cláudia Lessin Rodrigues? Na verdade, talvez nada tenha, mas o filme pode representar tudo, uma vez que O caso Cláudia não pretende ser o levantamento factual do crime, mas o inventário de todas as responsabilidades sociais do sistema que o gerou. E para isso, sua preocupação não é reconstituir um homicídio, "uma tarefa da polícia", segundo seu diretor, mas recompor o pano de fundo social onde ele se deu. Miguel explica então que "para desvendar o criminoso ou responsável é preciso mostrá-lo e o filme vai percorrer o cenário onde ele agiu: a cidade do Rio de Janeiro e a sua periferia, do submundo às salas de delegacia e aos escritórios luxuosos que com ele foram coniventes ou o estimularam". E esclarece: 

A estrutura do filme a partir de um roteiro escrito por Valério Meinel, José Louzeiro e por mim está baseada na ação de vários personagens sob um pano de fundo: a sociedade. A sociedade, na verdade, é a grande personagem do filme.

Seria então possível ver O caso Cláudia como uma espécie de "Brazilian connection"? Haverá denúncias sobre uma rede de tráfico de drogas no país?

Não, o filme não se propõe a ser um policial, ele é mais um documento psicológico e social de personagens que são em número de 20 destruídos por um modo de vida que faz deles mais vítimas do que culpados. Mas não se pode dizer que não há culpados, embora eles existam na realidade e a tarefa de apontá-los não seja minha e sim da Justiça. No entanto, eu não acredito que se os culpados no caso Cláudia fossem apontados e punidos tudo se resolveria. É preciso buscar as causas mais além, mais no fundo.

Como nasceu a idéia do filme e quais os seus objetivos?

O filme nasceu de conversas minhas com o Álvaro Pacheco da Artenova, uma editora que também entrou no ramo da distribuição de filmes e agora começa a produzir. Somos amigos e nas nossas discussões sobre um projeto para filmar a história de Cabral e enquanto não saía este projeto, decidimos fazer antes O caso Cláudia. A produção do filme é inteiramente independente, embora a gente esteja pensando em entregar a distribuição à Embrafilme, que consideramos uma das mais bem organizadas distribuidoras do País. Eu vejo este filme dentro de um panorama geral do cinema brasileiro - como uma produção de linha média, entre os objetivos de qualidade e a necessidade de realização comercial que o nosso cinema tem no momento de preencher espaço e lutar contra o produto estrangeiro de má qualidade. Nesse sentido, há uma evidente preocupação comercial em lançá-lo logo, provavelmente na época do julgamento dos implicados no caso.

Na Kombi, o diretor do filme e o diretor de produção, Adnor Pitanga, conversam sobre a piora do tempo e a impossibilidade de filmar. Miguel acha que deve-se esperar mais um pouco enquanto Adnor é de opinião de que já se pode dispensar a equipe. A equipe é finalmente dispensada até o dia seguinte e a entrevista continuará, com a presença dos atores Kátia D'Ângelo e Nuno Leal Maia, num restaurante do pontal do Recreio dos Bandeirantes. Durante a conversa, o diretor aproveita para fazer um pequeno laboratório com os atores e, respondendo a uma pergunta, fala sobre os seus personagens:

 Pode-se dizer que eles são basicamente diferentes. Flávia é uma pessoa que acredita nas pessoas, tem o vigor dos jovens que estão começando a viver agora e a força para levar a investigação sobre a morte da amiga Cláudia até as últimas conseqüências e com o risco da própria vida. Fernando, o personagem do Nuno, é praticamente o oposto da Flávia: ele é produto de uma geração que por um processo inteiramente deformado foi levado à descrença, menos quanto a status, dinheiro, fama, prestígio e aventura. A aproximação que nasce entre os dois decorre basicamente da carência afetiva e da atração física entre ambos. Na verdade, os dois estão marginalizados de sua classe; ela, porque não aceita a estrutura moral de seu meio, e ele, porque não é exatamente um bandido típico.

 Os narradores do filme são o repórter e o detetive. Não haveria aqui uma aproximação com os filmes policiais americanos?

 Eu acredito que a maior aproximação esteja no caráter essencialmente urbano destes filmes. Mais ainda, no tipo de civilização predominantemente cosmopolita nossa ainda que menos desenvolvida e que nos aproxima bastante da cultura americana. Mas seria bom lembrar que, enquanto no policial americano o personagem é um detetive particular, no nosso caso é, na verdade, um detetive da própria polícia. Ele e o repórter exercem essa função de perseguir a todo preço a verdade, assim como você está fazendo em relação a esse filme.

E o que é a verdade deste filme ?

 Há uma seqüência que eu considero a mais ilustrativa, provavelmente a mais verdadeira. É quando o advogado contratado pelo industrial Otto Dorf e seu filho, o acusado Pierre Dorf, está conversando com eles no escritório do industrial. Ele se dirige aos dois e exige: "Eu, como advogado, quero que vocês não me escondam nada, a base da minha argumentação tem que partir do conhecimento da verdade". Pierre então responde: "Bem, aconteceu o seguinte: eu não matei a moça, nós tomamos muito Mandrix, cheiramos coca e ela começou a passar mal. Enrolou a língua, eu tentei puxá-la, etc. "Enquanto Pierre está falando entra na tela um filmezinho em preto e branco onde os acontecimentos vão sendo todos reconstituídos. Essa, eu acredito, é a verdade do filme sob o aspecto da responsabilidade criminal dos autores. Mas é uma verdade parcial, porque a nossa preocupação procura abranger a responsabilidade social.

Kátia D'Ângelo, ao lado do diretor, adverte para o simplismo em que se pode incorrer ao comparar o filme com outras produções que também se baseiam em homicídios recentemente ocorridos:

 Este filme não tem uma pretensão sensacionalista como outros trabalhos do cinema brasileiro atual. O nome de Miguel Borges é um aval muito mais sério que outros diretores e produtores que estão seguindo esta mesma linha. De minha parte eu também não entraria num negócio que fosse simplesmente para provocar escândalo ou deturpar os fatos.

Nuno Leal Maia acredita que o filme se inscreve numa linha do cinema brasileiro muito próxima à de Lúcio Flávio, o passageiro da agonia.

Parece que o cinema brasileiro de hoje está seguindo uma tendência muito comum no cinema americano de algum tempo atrás: a recomposição romanceada de fatos verídicos e que agora toma o nome de "reportagem de ficção". O Caso Cláudia se coloca nesta categoria. Uma estrutura com uma ação reflexiva, isto é, uma linguagem em que o comportamento dos personagens reflete uma elaboração pré-estabelecida e que não está mostrada no filme.

Miguel Borges, que chegou à realização do filme depois de uma longa pesquisa sobre Cabral e as circunstâncias do descobrimento, prepara-se, depois da conclusão do Caso Cláudia, para finalizar essa nova produção, cujo orçamento deverá ser bem alto:

 É um projeto no qual eu estou mergulhado há muito tempo. Estive em março do ano passado em Portugal conhecendo alguns documentos pouco divulgados sobre o descobrimento. Para a realização do filme será necessário reconstruir algumas naus da frota de Cabral, o que se torna muito difícil já que só há um especialista no mundo sobre o assunto. Mas, superadas algumas dificuldades de produção, acredito que o filme poderá revelar informações inteiramente novas sobre o descobrimento do Brasil, um país que eles consideravam, na época, entre "as terras novamente descobertas".

Sérvulo Siqueira

 

Matéria publicada no jornal O Globo em 3 de fevereiro de 1979