Prefácio

 

Os 400 mil registros fotográficos que Mário Luiz Thompson acumulou ao longo de 30 anos de atividade abrangem um amplo espectro do modo de ser brasileiro. Conduzindo sua câmera pelo cenário majestoso da nossa terra, o fotógrafo tomou como referência básica a Música Brasileira, onde compositores, cantores, instrumentistas e arranjadores produzem a mais caleidoscópica colméia de melodias, ritmos, cantos e danças. Sua documentação da expressão fisionômica e das peculiaridades físicas e gestuais dos artífices dessa polifonia é o fio de Ariadne através do qual tece um amplo mural da cena brasileira, onde o nosso imaginário, os sonhos, as desilusões e esperanças repercutem melodias harmoniosas e versos dissonantes.

“Gigante pela própria natureza”, conforme lembra ufanisticamente seu hino e confirma a vastidão de nosso espaço geográfico, o Brasil se constitui numa pluralidade de regiões, paisagens, climas e tipos humanos, cuja característica cultural mais marcante tem sido a diversidade de sua expressão sonora e musical. Da cantiga do pastoreio dos pampas gaúchos, da toada pantaneira e da música caipira do interior paulista ao cantochão mineiro e ao choro carioca ou ao baião, ao frevo e ao xote nordestino, percorremos uma trilha pontuada por ritmos dançantes de larga tradição até àqueles que irrompem a cada nova estação, corroborando o velho dito da nossa sabedoria popular de que “tudo dá samba”. Produto da fusão de elementos procedentes das culturas européia e africana, que incorporaram as raízes nativas dos indígenas e cuja interação se espalhou ao longo de um imenso território, a música brasileira é única pela diversidade de seus ritmos e riqueza de sua melodia.

Se a música pode e deve refletir o todo – como parecem dizer as 100.000 fotos que o artista pacientemente conservou foi também necessário perceber as múltiplas características de nossas regiões, com suas formas físicas e humanas e seu linguajar próprio, gerando um rico tecido sonoro em que a percussão de um tambor pode apresentar a mesma elaboração técnica de uma sinfonia. A opção do fotógrafo em retratar cada um dos executantes deste concerto de diferentes sons e ritmos reflete o seu desejo de contar não uma, mas muitas histórias por meio daqueles que realizam o nosso mais recôndito desejo de nos exprimir. Nos 985 músicos que conseguiu registrar, encontram-se os traços distintivos e marcantes do nosso mais abrangente mosaico étnico, capturados no momento em que se dedicam por inteiro à criação de sua arte maior.

Não se contentando em buscar um simples registro iconográfico, Mário Luiz tentou ir além do simples epifenômeno do gesto posado, da foto de capa de revista, na ânsia de criar um espelho onde o próprio retratado pudesse se reconhecer. Mais ainda, num esforço de superação de sua própria individualidade, procurou se colocar no espaço cênico de maneira a não intimidar o objeto de sua atenção, sem permitir ao mesmo tempo que a busca de um momento de maior emoção desbordasse num ângulo sensacionalista ou no trejeito grotesco de efeito fácil. Emblemático de sua integração sensorial com a cena registrada é o instante em que no afã de capturar toda a dramaticidade do gesto de Maria Bethânia – o fotógrafo coloca a câmera no chão do palco onde a artista decidiu se estirar. Ao mesmo tempo, sua lente é também capaz de registrar o êxtase, o delírio e até mesmo o momento do mais profundo abatimento e prostração de seus retratados, na busca de um minotauro que em absoluto os diminui mas, ao contrário, somente os humaniza.

Sua postura nas 1462 fotografias escolhidas, ao longo de sua enciclopédia musical que vai de (A)bel Ferreira a (Z)izi Possi, visou sempre restituir a todos e a cada um individualmente a sua verdade intrínseca e extrair a nota precisa da emoção que o momento comportava. Embora marcado por uma coerência e rigor levados ao extremo, seu envolvimento não é menos emocional ou intuitivo. No rastro das milhares de apresentações musicais que presenciou e documentou, o fotógrafo procurou traduzir as mais intensas vibrações melódicas, os élans da alma e as pulsações do corpo dos músicos, em imagens que refletissem aquele momento mágico.

Combinando o necessário rigor do registro antropológico a descrição gráfica do movimento do corpo, o olhar, o trejeito, a contração do semblante na busca da nota apropriada - com a percepção sensível do momento certo a visão geral do conjunto, a iluminação da cena, a projeção do som por todo o ambiente a fotografia de Mário Luiz Thompson anseia por restituir a verdade do artista no momento de sua maior integração consigo mesmo e com sua forma de expressão.

Na linha da nossa melhor tradição fotográfica de observação social e antropológica, o fotógrafo busca compreender a expressão musical brasileira como um atributo de seu povo e de seu modo de ser. Desde a mais remota imagem que produziu um garoto fabricando sua rústica guitarra/instrumento a partir dos restos do lixo da favela de Alagados, na Bahia – o artista não se cansou de procurar compreender a equação de como um povo constrangido a perseguir incessantemente os meios primários de uma sobrevivência precária é capaz de criar uma Arte cujo valor é reconhecido internacionalmente. Celebrizada em capa de disco e outras publicações, essa imagem se tornou um ícone das nossas contradições e da relação do artista com a cultura baiana e seus diferentes epígonos.

Ao mesmo tempo imbuído de um espírito de observação jornalística e antropológica, Mário Luiz Thompson decidiu não privilegiar os astros e as estrelas de primeira grandeza do firmamento da MPB, mas se esforçou em compor minuciosamente a sua pirâmide, desde a base dos músicos quase sempre anônimos, a chamada “cozinha” instrumental das gravações, até o compositor que irá produzir o machadiano “molho” original.

Por outro lado, o fotógrafo aguçava a sua percepção para o novo que irrompia a cada instante e ia ao encontro do artista que estava surgindo ou do primeiro show da banda que começava... Se o acaso é uma decorrência do rigor, não foi por simples acidente que Mário Luiz estava presente no Embu, cidade da periferia da Grande São Paulo, no começo da carreira de Rita Lee e nos primórdios da ascensão musical de outro futuro astro, Raul Seixas. Na mesma linha, participou das capas das primeiras gravações de muitos nomes hoje famosos da MPB.

Sua rica documentação iconográfica conta também além da história da MPB durante boa parte da segunda metade desse século – a história pessoal de muitos dos retratados, acompanhados de perto pelo fotógrafo durante todos esses anos. Esse é o caso do amigo Gilberto Gil cujas primeiras imagens datam ainda de sua mocidade mas o mesmo poderia ser dito de muitos outros como Alceu Valença, Luís Melodia, Jorge Mautner, Armandinho, com quem as relações de trabalho de Mário Astral como o chamam carinhosamente no meio musical criaram laços de amizade duradoura. Inúmeros registros fotográficos dessas e de outras personalidades, que fazem parte de seu acervo, evidenciam um convívio, uma intimidade que vai muito além da simples relação profissional.

Por fim e no fundo de todas essas histórias de alguma maneira contadas, articuladas ou balbuciadas, elaboradas ou entrecortadas, emerge a própria biografia do fotógrafo, convertido em guardião de todos aqueles momentos pela impossibilidade de realização do seu sonho mais acalentado: tornar-se ele próprio um músico. Acreditando não dispor das qualificações necessárias, Mário Luiz um meticuloso perfeccionista em seu trabalho decidiu colocar-se a serviço do meio de expressão que mais o emociona e consagrou sua vida a registrar e preservar todos aqueles momentos tão intensamente vividos.

Em seu livro que certamente irá se tornar uma referência para o futuro desfilam desde ícones do passado, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Braguinha e Ismael Silva, aos jovens talentos emergentes Lenine e Zeca Baleiro, passando pelas verdadeiras instituições musicais Dorival Caymmi, Radamés Gnatalli, Antônio Carlos Jobim, Hermeto Paschoal. Edu Lobo ou Egberto Gismonti, até os astros Roberto Carlos, Chico Buarque, Caetano Veloso, o amigo Gilberto Gil ou visionários do futuro como Walter Smetak.

Ao documentar o rigor investigativo de Walter Smetak, Mário Luiz Thompson prefigura o músico do futuro – representado também por Hermeto Paschoal que encontra na natureza os sons que lhe servem de instrumento, com a consciência de que a imensa pluralidade da música brasileira não pode dispensar a polifonia instrumental desse criador europeu que buscava uma ampla expressão para a nossa riqueza melódica.

Suas imagens resgatam um tempo, hoje quase esquecido, de 30 anos atrás, retirando do fundo do baú da nossa memória onde a poeira do tempo as deixou as figuras legendárias de Aracy Cortes, Orlando Silva, Patativa do Assaré, Pena Branca e Xavantinho, Zé Côco do Riachão, Silvio Caldas, Waldir Azevedo e Zezé Gonzaga, além de outras mais recentes porém não menos importantes – como Edson Machado, Geraldo Vandré, Germano Mathias, Nelson Gonçalves, Nelson Sargento, Victor Assis Brasil, Tonico e Tinoco, Turíbio Santos, o Trio Elétrico de Dodô e Osmar, Jorge Veiga e Roberto Silva, que exprimem uma energia que a ausência de sonhos dos dias de hoje nos retirou.

A todos eles não falta o olhar amplo e ecumênico do fotógrafo que, ao mesmo tempo em que lhes distingue as diferenças, confere-lhes o estatuto de praticantes de um ofício - que tem as características de um verdadeiro sacerdócio.

Vistos em seu conjunto, os dois volumes de Bem Te Vi Música Popular Brasileira apresentam um claro traço de rigor e coerência que compõe uma sinfonia de formas, cores, luzes, expressões e paisagens permeada por todos os mais diversos semblantes que pode assumir a deusa música, em sua contínua expressão do Todo múltiplo.

 

Sérvulo Siqueira

 

Prefácio do livro de Mario Luiz Thompson, Bem Te Vi: música popular brasileira - 70, 80, 90, a MPB retratada em três décadas. São Paulo: Imprensa Oficial, 2001.   Vols. I e II