O Criador e a Criatura



“Meu querido, meu bom amigo, os lobos sempre comeram os cordeiros; será que desta vez os cordeiros comerão os lobos?" (Carta escrita por Madame Julien a seu filho em 2 de Agosto de 1791, durante o processo da Revolução Francesa).

A correspondência recente trocada entre o Presidente da República, Fernando Collor de Mello, e o empresário Roberto Marinho, Diretor-Geral das Organizações Globo, que o jornal O Globo publicou no último domingo, dia 6 de setembro, permite uma análise que desvenda alguns dos momentos mais significativos da nossa história atual.

Segundo se depreende, a iniciativa do contato deveu-se a uma visita que Roberto Marinho fez a Collor do Palácio do Planalto, o que motivou uma carta de agradecimento do Presidente. Para além de outras interpretações ou diferentes níveis de leitura que psicólogos, psicanalistas e semiólogos possam fazer do tom extremamente amável e cordial do texto – o que por si só já revelaria um contraste flagrante com a retórica habitualmente altiva e guerreira do Presidente em seus pronunciamentos públicos o que chama a atenção na carta é o modo como Collor procura tocar insistentemente no tema do "impeachment". Depois de observar que o "Doutor Roberto", durante sua visita, não abordou temas políticos, Collor tece alguns comentários sobre o livro "Trajetória Liberal", que o autor lhe ofertou com os votos de que encontrasse na leitura "uma pausa na "tormenta" que agora enfrenta".

Seguem-se então algumas observações que Collor faz a propósito de artigos escritos por Roberto Marinho sobre a CPI da Corrupção do Governo Sarney, da qual o comandante da Globo foi um feroz opositor. Ao traçar um paralelo entre a CPI do Governo Sarney e a CPI do PC, Collor deixa propositalmente de mencionar que naquele momento do nosso passado recente ele e Roberto Marinho estavam em campos opostos. Como se sabe Collor acabou se tornando o grande beneficiário das inúmeras denúncias levantadas pela CPI da Corrupção e que levaram a sua tonitruante campanha pela moralidade na vida pública brasileira e sua notória "caça aos marajás". Fernando Collor lembrou também outra CPI, aquela criada para apurar a famosa associação da Rede Globo com o grupo norte-americano Time-Life tomando como paradigma o que considera uma atitude de "absoluta correção" do empresário, o que teria levado o Presidente ao ponto de vista de que" seus acusadores é que praticam atos criminosos", Collor considera que o mesmo está se passando agora com seus adversários.

Em sua conclusão, o Presidente pede que o "Amigo tenha a generosidade de compreender que o estado de espírito em que encontro levou-me a estender esta carta além do seu objetivo... "Torna-se perceptível, através da leitura da carta, que aquilo que não tentou, ou não conseguiu, em seu encontro vis-à-vis, o Presidente procurou obter através de sua carta, ou seja, obter o apoio do poderoso empresário em sua luta contra o impeachment.

A resposta do Doutor Roberto não é menos amável ou cordial, embora elusiva, e rememora os encontros entre os dois que antecederam ao lançamento da candidatura de Fernando Collor de Melo à Presidência em 1989. No que parece ser a primeira vez em que alguns fatos se tornam públicos, Roberto Marinho recorda para o Presidente Collor e revela de forma explícita para nós que, durante 20 dias, ele e o futuro candidato conversaram sobre nosso país sem que Collor "revelasse qualquer aspiração concreta de caráter político".

No segundo período da carta, o empresário lembra que "sempre dialogando em torno dos problemas que nos assolam, sem uma palavra explícita sobre sua rota, você subliminarmente levou-me a perguntar quando iniciaríamos a sua campanha para a Presidência da República. A resposta, sem ênfase, foi: ”Quando o senhor quiser". Continuando em suas rememorações, Roberto Marinho acrescenta outros dados que evidenciam as estreitas ligações entre o atual Presidente e as Organizações Globo."No dia seguinte, depois de ter conversado com os meus filhos e com os companheiros do Globo e da Rede Globo, combinei junto com você a data".

Após evocar a campanha vitoriosa de Collor, Roberto Marinho observa que "a Nação retém os lances dos seus êxitos, suas vacilações nestes dois anos" e conclui pela continuação da nossa sólida amizade, com respeitosas franquezas de parte a parte, mesmo neste instante dramático da vida brasileira".

Duas conclusões podem ser tiradas a partir de uma leitura superficial da resposta de Roberto Marinho.

A primeira é a que aponta para o fato de que o "Doutor Roberto" parece lembrar ao Presidente que seu sucesso se deu quando Collor assumiu uma postura menos altiva e arrogante, o que não parece ser a sua característica nos dias de hoje. A resposta "quando o senhor quiser", dada pelo jovem Collor quando ainda postulante a candidato, não condiz com o atual discurso do Presidente.
A conclusão é a de que o experimentado empresário não assume nenhuma postura clara em relação ao Presidente e ao seu impedimento e, ao contrário, procura enfatizar a postura isenta do jornal O Globo que marcam o atual momento da era Collor.

Seria exaustivo e de certa maneira precipitado esmiuçar as razões da erosão do prestígio de Collor, desde sua ascensão ao Poder, com seus apregoados 35 milhões de votos, até os dias de hoje, e sua clara dificuldade em obter os minguados votos na Câmara necessários para evitar a sua derrocada. O certo é que mesmo antigos aliados, como o pragmático Roberto Marinho que sempre cerrou fileiras ao lado do Poder parecem faltar-lhe neste momento. No entanto, não seria demais lembrar que foi o fiel escudeiro de Collor, o Deputado Paulo Otávio, quem organizou um consórcio, ao lado do empresário paulista João Carlos Di Gênio, para adquirir a Rede Manchete, de Adolpho Bloch. Tudo isto com o beneplácito é claro da União, à quem a empresa devia quase 100 milhões de dólares. Exatamente como ocorreu com a compra da Vasp, uma operação considerada hoje como tendo sido tramada por PC Farias. No caso, o que foi exatamente que abortou a transação da venda da Manchete? O próprio Dr. Roberto Marinho levantou dúvidas sobre a verdadeira natureza do negócio.

Estes não parecem, entretanto, ter contido os ânimos do grupo ligado a Collor, já que há igualmente, muitas dúvidas sobre as operações e a formação da Rede OM, em torno da qual pairam também – de forma quase onipresente a figura de PC Farias e seus "fantasmas". Entre as muitas interpretações acerca da ascensão retumbante e do que parece representar, hoje, a queda vertiginosa de Fernando Afonso Collor de Melo, está aquela que o identifica como uma espécie de Lúcifer, um anjo superior que se revolta contra seus criadores. Ou, então, na versão mais irônica de Leonel Brizola: a de que Collor poderia ser comparado a uma noviça rebelde, que as madres superiores resolvem punir por sua ousadia.

O que parece claro é que o impeachment em curso não teria sido possível sem o apoio de elites poderosas da sociedade brasileira. Ao tentar açambarcar, de uma forma que nem sempre pareceu lícita, um ponderável e estratégico segmento da economia do País compreendendo, entre outros, redes de comunicação de massa, empresas de transporte, empreiteiras, construtoras além de ocupar postos-chave em altos escalões da Administração, Collor e sua "República de Alagoas" açularam tanto a fúria dos cães raivosos do capitalismo selvagem brasileiro quanto a justa indignação da consciência moral mais íntegra da Nação. Ao mesmo tempo, sua política econômica de recessão, fome e miséria, posta sucessivamente em prática por Zélia e Marcílio, não resgatou as esperanças dos "descamisados e pés descalços ", de quem recebeu os seus 35 milhões de votos.

Não lhe restou mais nada, a não ser a sua famigerada "tropa de choque". Esperemos que, desta vez, os cordeiros já que eles certamente não comerão os lobos, mesmo porque são vegetarianos ao menos consigam sobreviver e não morram de fome. (11/09/1992)

 

Sérvulo Siqueira