Seis filmes de Max Ophuls: Os jogos barrocos e os labirintos de um narrador sutil

  

Considerado um importante estilista e mestre do cinema barroco, Max Ophuls é pouco conhecido no Brasil. Aproveitando o lançamento da versão integral de Lola Montez, em exibição no Novo Pax, a Cinemateca do MAM promoverá a partir de boje – e durante o mês de novembro – a exibição de cinco dos seus mais importantes filmes. Com sessões na Cinemateca e no Novo Pax, serão mostrados Conflitos de amor, Uma história de amor, Carta de uma desconhecida, Madame De..." e O prazer, além de Lola Montez, que continua em cartaz.

Diretor franco-alemão nascido no Sarre em 1902 e falecido em Hamburgo em 1957, Max Ophuls foi jornalista durante a 1a. Guerra Mundial e depois tornou-se francês por adoção. Estreou no teatro em 1919 como ator para depois se desenvolver como diretor, encenando desde o teatro clássico até a opereta, No cinema, começou como assistente de Anatole Litvak, em 1930, ano em que realizou seu primeiro filme.

O primeiro sucesso só veio com Uma história de amor, realizado na Alemanha com o título de Libelei, em 1932. Neste filme, seu estilo elegante e refinado já se definia na adaptação de Arthur Schnitzler, em quem Ophuls mais tarde se inspiraria para criar um dos seus mais importantes filmes, Conflitos de   amor, em 1950.

A ascensão de Hitler ao poder na Alemanha obrigou Ophuls – de origem judaica – a abandonar o país e a instalar-se na França, onde o êxito de Uma história de amor lhe permitiu prosseguir a carreira – com o parênteses de duas obras realizadas na Itália e na Holanda. Na França, pôde desenvolver um estilo romântico e nostálgico e de grande elaboração formal em filmes de sucesso como La tendre ennemie (1936), Sans Lendemain (1939) e De Mayerling a Saravejo (1940), onde narrou os amores do Arquiduque Francisco Fernando com a condessa tcheca Sofia Chotek.

O avanço das tropas alemãs levou-o à Suíça e, em seguida, aos Estados Unidos, onde a ajuda de Douglas Fairbanks lhe possibilitou continuar sua carreira, a partir de 1947, com The exile, Cartas de uma desconhecida, em 1948 – uma adaptação de Stefan Zweig – e The reckless moment, de 1949, seu último filme na América.

Em 1950, reiniciou sua filmografia na França onde, com o prestígio de ter sido descoberto pela nova crítica da revista Cahiers du Cinéma, realizou suas obras de maturidade. A este período de apogeu correspondem Conflitos de amor – novamente uma adaptação de Arthur Schnitzler; O prazer – baseado em várias narrativas de Maupassant; Madame De... – segundo uma novela de Louise de Vilmorin – e a reconstituição romanceada da vida da bailarina de flamenco Lola Montez, interpretada por Marine Carol, filme que sofreu a mutilação de uma remontagem, perpetrada pela  produtora com vistas à sua distribuição comercial.

Nesta obra, Ophuls realizou – da mesma forma que seus contemporâneos Vidas Amargas de Elia Kazan e Nasce uma estrela de George Cukor – a primeira utilização esteticamente criativa do então discutido formato Cinemascope.

A mutilação de sua obra mais importante e ambiciosa abalou Max Ophuls que – afetado por problemas cardíacos – morreu um mês depois da apresentação da nova montagem, em 1957. Até 1968 – quando graças ao produtor Pierre Braunberger – foi relançada a versão integral de 140 minutos, só se pôde conhecer a discutível edição realizada pelos produtores, suprimindo quase todas as cenas do circo, que representavam a parte mais contundente do filme.

Max Ophuls, no entanto, não estava só. Uma "carta aberta" redigida por famosos diretores da França - que atendiam ao apelo de François Truffaut de que "é necessário participar" – protestava contra os ataques sofridos pelo filme à época do seu lançamento, em dezembro de 1955, afirmando que "o filme faz pensar e acreditamos que o público queira pensar".  O ciclo apresentado pelo MAM, com o nome de Retrato de Max Ophuls, começará hoje com a exibição, às 22h30m, no Novo Pax, de Conflitos de Amor. Uma adaptação livre da peça de Schnitzler, a obra é composta de 10 breves episódios amorosos entrelaçados por um narrador amável e irônico – interpretado por Anton Walbrook – que sob uma aparência frívola oferece uma visão satírica e, às vezes, amarga da futilidade da libertinagem e dos jogos amorosos. Nesta autêntica ronda amorosa participam os mais diversos tipos e personagens: o soldado (Serge Reggiani), a prostituta (Simone Signoret), o estudante (Daniel Gelin), a criada (Simone Simon), a senhora burguesa (Daniele Darrieux), o marido burguês (Fernand Gravey), outra prostituta (Odette Gravey), o poeta (Jean-Louis Barrault), a atriz (Isa Miranda) e o conde (Gerard Philipe) que se relacionam entre si. A fotografia do filme é de Christian Matras, que trabalhou com Ophuls em outros filmes, inclusive Lola Montez, e a música foi composta por Oscar Strauss. Roger Vadin, em 1964, filmaria uma nova versão da peça.

No domingo dia 20, haverá às 16h30m, na Cinemateca do MAM, a exibição de Uma história de amor, segundo filme de Ophuls e o primeiro a alcançar certo sucesso. Produção alemã de 1932, tem como atores Magda Schneider e Wolfgang Liebeneiner. E às 18h30m, também na Cinemateca, Carta de uma desconhecida, realizada nos EUA em 1948, a partir de uma novela de Stefan Zweig. Interpretado por Joan Fontaine e Louis Jourdan na história de amor de uma jovem, que depois se casaria com um militar e um famoso músico, o filme – onde o diretor demonstra a notável habilidade de linguagem que sempre o caracterizou – termina no momento em que o músico se prepara para se dirigir ao local onde se realizará o duelo, para o qual foi desafiado pelo marido daquela que em outros tempos foi sua amante. Realizado a cores – com fragmentos em preto e branco – Cartas de uma desconhecida é considerado um dos filmes mais bem acabados de Ophuls.

No sábado, dia 26, será apresentado na Cinemateca – no horário das 16:30 hs – Madame De..., filme de 1953. Adaptado de uma novela curta de Louise de Vilmorin, Ophuls mais uma vez retorna ao tema de Conflitos de amor: os jogos eróticos. Um cavalheiro dá à sua mulher (Danièle Darrieux) valiosos brincos. Ela os vende para pagar dividas, mas seu marido (Charles Boyer) os resgata e volta a oferecê-los. Novamente ela vê-se obrigada a vendê-los, mas um diplomata apaixonado (Vitorio de Sica) a obsequia outra vez. O marido descobre a infidelidade e devolve os brincos ao diplomata, com as devidas explicações. Há, então, um duelo no qual o diplomata é assassinado e Madame De..., que perdeu o seu novo e autêntico amor, morre também. Este filme estranho e nostálgico, carregado de uma sutil ironia, caracterizado por um grande refinamento e um barroquismo criativo, é considerado uma das obras mais representativas de Ophuls. O roteiro foi escrito por Max Ophuls com o teatrólogo Marcel Achard e Annette Wademant – tradicional colaboradora do diretor – e tem fotografia de Christian Matras. Encerrando o ciclo, no dia 27 deste mês, haverá a exibição na Cinemateca, às 16h30m, de O prazer, realizado em 1952 na França e interpretado por Claude Dauphin, Madeleine Renaud, Daniele Darrieux e Daniel Gelin.

O estilo refinado e preciosista de Ophuls – veículo expressivo coerente com seu universo romântico - lhe valeu com frequência ser acusado de formalista, maneirista e decadente. Na verdade. esta é uma acusação superficial: por trás do seu decorativismo, existe um autor que – além de cultivar um sentido pictórico de imagens e elaborar uma narração sutil - soube realizar a crítica da frivolidade e da mundanidade através dos personagens que descreveu.

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 14 de novembro de 1977.