Valentino: Um hiper-realismo cinematográfico

 

Barroco, feérico e delirante foram alguns adjetivos exaustivamente empregados no exterior a propósito da postura assumida por Ken Russell em sua recriação da vida do mito do cinema mudo Rodolfo Valentino, interpretado por Rudolf Nureyev. Outros preferiram sublinhar que o estilo do cineasta nem sempre correspondeu à verdade dos fatos, realçando o lado Kitsch, o caráter grotesco e caricatural da sua representação. Ambos comentários correspondem de fato à encenação adotada por Russell em suas biografias anteriores de Tchaikovsky, Liszt e Mahler, onde a fidelidade à verdade dos acontecimentos dá lugar a um discurso expressionista que transpira as obsessões do diretor, de seu universo delirante e pouco rigoroso, e de suas idiossincrasias sexuais, et caterva... Falar em estilo a propósito de Ken Russell talvez também signifique lembrar a falta de um rigor: sua linguagem mais parece uma colagem, um conjunto de maneirismos extraídos aqui e ali do cinema inventivo e renovador de Orson Welles, dos musicais do cinema americano, um pouco do preciosismo estilístico de Visconti, etc. Uma linguagem da decadência perfeitamente adaptada aos assuntos que escolheu; personagens torturados, nostálgicos, corroídos por sentimentos de culpa. Neste sentido, seu esforço tem consistido em enfatizar estas características, exercitando um estilo marcado por uma decupagem e montagem de choque, reforçado por uma esfuziante utilização de filtros e lentes deformadoras e representado em cenários luxuriantes. Sua marca pessoal é portanto o produto refinado de uma adaptação/deformação, realizada a partir do que o cinema tem produzido de mais brilhante e criativo. Esta geléia geral cinematografica, encenada com encanto e sofisticação, tinha tudo para adequar-se – e como tal isto chega a acontecer em algumas seqüências à recomposição da juventude do cinema, quando por um breve lustro um imigrante italiano ocupou como uma estrela o firmamento da cidade da imagem. A esta recomposição Russell se emprega, sem desmerecer o caráter fetichista de seu objeto, e a realiza sob o mesmo tom ilusionista que moldava o cinema americano dos anos 20.

Seu parti-pris visual é, entretanto, diverso: ela não busca como o seu objeto a fantasia através do reforço dos elementos felizes, positivos e otimistas do argumento,sua fabulação não tem o tradicional final feliz confortador, sua moral nem sempre é categórica. Ao reproduzir um segmento histórico e seu modo de ser: vestuário, arquitetura, comportamento, hábitos sociais, tudo o que chamaríamos o conjunto de uma sociedade da época, suas técnicas de reprodução não são rigorosamente realistas, elas tendem sempre para a ampliação e o exagero.

Compartilhando a visão determinante do hiper-realismo, estilo das artes plásticas que desabrochou na década de 70, seu princípio parece ser o de que o exagero "é mais verdadeiro do que a verdade". Recusando uma análise mais coerente e precisa que revele o modo de produção de um sistema social e a maneira como Valentino foi por ele assimilado e consumido, Russell prefere no estilo dos pintores do hiper-realismo o retoque, a ampliação do seu lado grotesco. De um fait-divers, um recorte de jornal, Russell faz uma cópia – embora essa não chegue a. se definir como tal de uma forma tão delirante que mais parece se tratar de fotografias pintadas a mão em cores berrantes. Um exemplo típico deste maneirismo é a seqüência da luta de boxe/concurso de dança entre Rudy/Nureyev e um debochado jornalista. Seu estilo, sua linguagem, sua ótica assumida para recapturar a vida e a época de Valentino revelam mais das técnicas e procedimentos adotados e já mencionados a expressividade da representação, ambientes, lentes, música e montagem do que numa posição elaborada e clarividente sobre o mito maior do cinema mudo. Uma linguagem erigida sobre outra linguagem: que mais poderia esperar um cineasta comercialmente bem-sucedido dos anos 70?

 

Sérvulo Siqueira

 

Matéria publicada no jornal O Globo em 27 de fevereiro de 1978