Um Homem sem Importância: A Importância do Simples

      

Direção, roteiro, fotografia e montagem: Alberto Salvá

Música: Denoy de Oliveira

Elenco: Oduvaldo Viana Filho, Glauce Rocha, Rafael de Carvalho, Lida Magna

35 mm, preto e branco 1971

 

Algumas considerações podem ser feitas à propósito do relançamento de Um Homem Sem Importância, filme em preto e branco realizado em 1971 e que mostra uma face sofrida do cinema brasileiro desta época. Um sofrimento que se expressa em Flávio, personagem interpretado por Oduvaldo Viana Filho, "um herói que luta contra o mundo de mãos vazias", nas palavras de Salvá, mas  que se espalha sobre todas as difíceis condições que envolviam a realização de filmes na época. A obra cinematográfica, com seu estilo despojado, seus climas às vezes patéticos e às vezes líricos, seu “final infeliz”, estava por certo defasada em relação à tendência mais comum do público do cinema brasileiro de então, pois que se revelou um rotundo fracasso de bilheteria. O retrato de Flávio, um homem sem importância que chega aos 30 anos sem uma real capacitação profissional que lhe permita viver de um trabalho honesto e digno, à mercê dos eventuais empreguinhos a que é lançado e que o obrigam a depender do pai, um mecânico ignorante, na verdade não representava uma perspectiva otimista da época em que se vivia a euforia do "milagre brasileiro", quando as mais diversas ofertas de ascensão social eram anunciadas aos quatro cantos.

Semelhante em muitos pontos com o cinema neo-realista, uma espécie de contraponto de Umberto D, de Vittorio De Sica, o filme pode ser visto como a crônica do desamparo do homem tropical de meia-idade num país onde mais de 50 por cento dos habitantes possuem menos de 20 anos e cuja cultura e história são ainda extremamente jovens. A aproximação neo-realista é conscientemente assumida por Salvá ao reconhecer no filme uma semelhança de estilo com Pietro Germi, mas ao optar por uma narrativa simples e despojada, uma iluminação sem artifícios e escolher um assunto sem grandes espetaculosidades, o diretor parece estar respondendo, de forma deliberada ou não, ao curso que cinema brasileiro estava assumindo na época. Ao esforço, embora não respondido pelo público, a crítica cinematográfica brasileira correspondeu, considerando Um Homem Sem Importância um dos filmes mais importantes do ano.

As agruras de Flávio, ainda que representem a espinha dorsal do filme, servem também de fio condutor para um apanhado geral do Rio de Janeiro, dos seus mais diversos personagens e sua (ainda) bela paisagem urbana. Ao longo de uma segunda-feira, em que o -filme se passa em sua maior parte, Flávio - com recortes de classificados à mão - vai desbravando a selva da cidade e acaba por estabelecer com seus habitantes anônimos uma relação de solidariedade e afeto. Não assumindo explicitamente um discurso ideológico, não fazendo das agruras de seu personagem uma bandeira de luta política, Salvá caminha na direção de um humanismo que reconhece a luta do indivíduo contra a máquina e descarta a divisão maniqueísta do mundo entre bons e maus. O drama de Flávio surge então não apenas na forma de revolta contra um sistema mas também do que implica a responsabilidade decorrente de sua consciência. Salvá mostra como a consciência não é um atributo dos privilegiados - muito antes pelo contrário — os personagens oprimidos do filme têm, quase todos, pleno conhecimento de seus problemas, embora isto não lhes dê condições de transformar a sua vida.

Ainda que as circunstâncias históricas pelas quais passava o Brasil em 1970/71 não incidam diretamente sobre a obra, é importante lembrar o momento socioeconômico e político de então. Em meio aos grandes golpes do sistema na repressão contra os focos de guerrilha urbana, o país passava por um período de euforia econômica, a oferta de empregos crescia, a classe média se regozijava com o mercado de capitais, com as ações da Bolsa e o incessante consumo que os seus dividendos proporcionavam. Nesse momento em que a televisão brasileira também começava a transmitir em cores, um filme com orçamento pequeno, atores que não eram exatamente estelares, rodado em branco e preto e a partir de um tema que colocava em questão a igualdade de competição, a marginalização do homem de meia-idade, o conflito da classe média baixa e sua estratificação social, não pode ser considerado exatamente otimista ou ufanista. Por outro lado, é a exposição despojada da realidade e de seus personagens mais comuns, seus "barnabés", aqueles cuja força de trabalho move a roda do sistema, que torna a perspectiva do filme mais humana e descarta a possibilidade de uma visão pessimista.

O diretor alicerça o seu argumento – explicitado em entrevistas e outras declarações – num sentimento de solidariedade. Para ele, "o filme é uma prece de amor pelo homem que tem conhecimento de tudo de bom que existe na vida mas que não tem meios de alcançá-lo". É efetivamente durante o período em que Flávio sai numa segunda-feira à procura de emprego que o personagem acaba por estabelecer com outros seres da cidade grande  - malgrado o fato de viverem numa sociedade competitiva - um sentimento de identificação e solidariedade. No momento em que, por sugestão de um amigo também desempregado e à procura de trabalho - Flávio escapa do cinturão urbano do centro da cidade e de seu universo fechado de negócios, lucros e atropelos – e o personagem encontra um instante de transcedência e contemplação numa pequena vila do bairro de Santa Teresa, instaura-se um outro sentido do discurso do filme e que vai percorrê-lo praticamente quase até o seu final. Pode-se dizer na verdade que, embora o personagem viva na pele as agruras de sua situação, sua consciência ainda não é completa, já que sempre esteve confinada ao entorpecimento de um trabalho brutalizante. Seria preciso à Flávio o conhecimento de um mundo diferente do seu para que se completasse nele a consciência (intelectual ou sensível) da terrível marginalização a que tinha sido lançado e do imenso abismo que separava o seu conhecimento de uma nova prática de vida.

Depois de se despedir do amigo, socialmente proscrito como ele, Flávio reencontra, entre alguns rapazes, a moça - uma modelo fotográfico - que teria sido diretamente responsável pela sua demissão - narrada no começo do filme. Com eles, típicos produtos de uma juventude fútil e abastada da Zona Sul, começa um outro processo do seu aprendizado e que se dá através de uma nova abertura sensorial. É aí que, até mesmo as diferenças sociais podem ser eliminadas, ainda que por breves instantes e por meio de uma alteração provocada quimicamente por um alucinógeno. Em seguida, o contato com o japonês, a quem ajuda a trocar o pneu do carro, lhe traz de novo o sentido das coisas mais simples da vida e o valor do homem (e do indivíduo) na sociedade, junto com a consciência de que, lá como cá, a '"barra" está realmente "pesada". Este acontecimento abre as portas do afeto de Flávio para o amor com Selma (Glauce Rocha), praticado em pé na cozinha e no banheiro da casa dos pais da escriturária, um sexo abafado, recalcado e, finalmente, liberado como um ato digno e merecido.

Por fim, a volta à casa paterna, o lugar de repouso nada tranqüilo de um guerreiro vencido pela cidade e aprisionado numa estrutura historicamente viciada, mas que soube transcender a banalidade do cotidiano. Depois disso é ainda mais difícil para Flávio aceitar o conformismo de seu universo familiar que não lhe deu mais do que "as mãos vazias" para enfrentar o mundo.

O fracasso comercial do filme na época do seu lançamento quase sepulta a importância da obra para o cinema brasileiro contemporâneo, mas seu relançamento, num momento de transição do nosso cinema, nos obriga a repensar o sentido de sua trajetória. Passada a euforia do "boom", da qual restou uma certa depressão, reaparece um filme como Um Homem Sem Importância, que pode ser tomado como um modelo de linha média para o nosso cinema, postado entre o vanguardismo esteticista cuja rebeldia é necessária mas nem sempre proveitosa e o cinema de espetáculo que acaba por estabelecer, de forma contraditória, um sucedâneo subdesenvolvido para o padrão americano de linguagem.

Salvá, em seu filme, nos mostra como é possível ser simples sem perder a emoção e o sentimento. No entanto, esta emoção e este sentimento não se derramam numa linha de fácil e superficial identificação nem diluem o afeto num abstrato discurso ideológico, que talvez fosse adequado em outras circunstâncias mas que soa com freqüência como um falso panfleto  cinematográfico.

 

Sérvulo Siqueira

 

Matéria publicada na revista Filme Cultura 34, Jan/Fev/Mar 1980