Rock é rock mesmo

 

Muitos puristas da "mise-en-scène" poderiam apontar em The song remains the same, de Peter Clifton e Joe Massot, uma abundância de trucagens e efeitos visuais. Na verdade, o que filme tenta encontrar é uma equivalência de imagens para a cultura visual trazida pelo rock, com seu lado mágico dos espetáculos.

Seguindo a linha de muitos documentários nacionais e estrangeiros sobre música e pop-stars, sua estrutura básica repousa no registro de um show realizado pelo Led Zeppelin no imenso ginásio do Madison Square Garden. Do documento bruto, passa-se a uma recriação do que seria o universo pessoal e subjetivo dos quatro integrantes do conjunto. Do baixo e organista John Paul Jones ao baterista John Bonham, passando pelos astros Robert Plant e Jimmy Page, o filme começa no registro de uma música da apresentação e flui para a Inglaterra, Escócia e Gales – onde foram realizadas as seqüências complementares e encontra Jones como uma personificação mascarada dos fantasmas e repressões vitorianas, Plant na pele de um audaz cavaleiro das cruzadas na corte do Rei Artur, o desafiador Bonham em seus carros de corrida e Jimmy Page reencarnado no velho que carrega um candeeiro do álbum Led Zeppelin-IV: uma luz iluminando uma paisagem no alto de um morro.

A primeira imagem de The song remains the same é a de um pássaro, à qual se superpõem muitos outros. No extremo oposto, o último plano do filme nos remete a um pássaro metálico um grandioso jato com o nome do conjunto no seu corpo. À parte algumas similitudes de fácil percepção, uma ironia é desvendada pelo filme: do pássaro que voa livremente ao avião dirigido percorre-se uma trajetória que passa pela máquina do sucesso, cuja engrenagem só parcialmente é elucidada no documentário. Embora como diz o filme "a canção ainda é a mesma" sabe-se que muita coisa mudou e certamente também a vida dos quatro músicos. No momento em que a câmera corta de um solo de Page para a cena do espancamento de um jovem na entrada do estádio, não se trata de um truque, outros acontecimentos posteriores o demonstram: o roubo da renda do show no hotel, a proteção dos guarda-costas contra a ação de pessoas consideradas estranhas, etc.

Não é por acaso que as últimas seqüências apresentam um clima melancólico: do plano da saída do Madison Square Garden uma garota solitária e desolada observa a passagem dos seus ídolos ao plano seguinte quando eles partem também solitários em sua gigantesca aeronave (uma mania dos pop-stars) muita coisa mudou, mesmo que não tenha sido a canção.

 

Sérvulo Siqueira

 

Matéria publicada no jornal O Globo em 7 de setembro de 1977