Paixão e Sombras

 

Direção de Walter Hugo Khouri. Com Lillian Lemmertz, Monique Lafond, Fernando Amaral e Carlos Bucka. Cinemas Roma-Bruni e Bruni-Copacabana, Rio

 

Tratar de Walter Hugo Khouri implica quase sempre a lembrança das recém-notabilizadas patrulhas ideológicas, as quais – mesmo quando ainda não tinham sido identificadas viam no cineasta um dos seus alvos prediletos. Desta vez, no entanto, ele próprio realiza a sua patrulha interior, ao tentar ainda que de forma um pouco autocomplacente exorcizar fantasmas íntimos e as críticas que uma grande parcela da crítica brasileira vem lhe fazendo há mais de vinte anos. Chega a ser simpático, embora não se possa dizer em absoluto que seja novo, que um diretor que carregou por tanto tempo o estigma do hermetismo, exercendo muitas vezes um discurso elitista e subjetivo, exponha com sinceridade razoável as suas idiossincrasias e obsessões. É verdade que seus críticos mais duros e inflexíveis ainda podem lembrar que, apesar da aparente abertura do diretor, o núcleo básico desta crítica permanece inalterado. Khouri estaria agora, como bom diluidor de discursos alienígenas (Bergman e Antonioni, principalmente), apenas reprocessando uma tendência mais recente do cinema contemporâneo: a tematização da obra pelo próprio criador e a transformação do autor em verdadeiro personagem de ficção.

Nesse seu 13º filme e meio, Khouri realiza no mesmo sentido o inventário que Fellini elaborou em Oito e Meio, e na direção oposta à seguida por François Truffaut em A Noite Americana. Juntamente com Fellini, Khouri termina por sucumbir diante de seus fantasmas e, se Federico permite que as figuras da sua imaginação e do seu passado tomem forma e invadam a tela numa representação exuberante, Marcelo, o diretor alter ego de Khouri, termina sozinho e perplexo diante de um imaginário que não consegue exorcizar.

Teimosia, obstinação, coerência, rigor? São algumas questões que Paixão e Sombras pode suscitar. Como síntese de todas elas, fica principalmente a imagem de um autor que acredita estar erigindo uma grande obra, e àqueles que não se comprazem com a mesma certeza ele responde apontando para o futuro.

Filme suficiente para compreender o universo de Khouri; embora o seu tom confessional não o torne mais aceitável, apenas nos faz perceber mais claramente o seu universo passadista, nostálgico, elitista, às vezes dogmático, e que, confrontando com a realidade, termina por se refugiar realmente num mundo de "paixão e sombras", no pior sentido da expressão.

 

Sérvulo Siqueira

 

Matéria publicada na revista Istoé em 20 de dezembro de 1978