O Último Magnata: À luz das estrelas

 

O último magnata, novela inacabada de Francis Scott Fitzgerald, configuração ficcional do tumultuado universo mercantilista de Hollywood, é o desabafo poético do escritor contra o sistema que sempre o repudiou. Por outro lado, dada a ambientação de sua história, torna-se o veículo para a difusão da nostalgia, da qual se servem outros autores para realizar, a pretexto de uma recomposição histórica, a expiação de seu passado de culpas ou a denúncia de um establishment do qual se sentiram ou foram marginalizados.

Elia Kazan, ao operar a adaptação da narrativa de Fitzgerald, acabou por fazer as duas coisas. Enquanto Fitzgerald – autor da chamada Geração Perdida, cujo ápice ocorreu na primeira metade do século 20 – documenta, ainda que de forma não muito explícita, o processo de mais valia exercido pelos plenipotenciários chefões de Hollywood sobre o corpo produtivo da grande indústria de diversões – atores, diretores e autores, principalmente – Kazan procura lembrar a inacessibilidade desta indústria: sua imagem seria como a da mulher amada a quem o personagem diz "eu não posso te perder" mas que se assemelha, como no plano final, a um vasto universo de sombras.

Operando uma adaptação/transformação em Fitzgerald, Kazan introduz elementos que não estavam explicitamente presentes na novela. A discussão sobre os roteiristas, que fabricavam a matéria-prima de sonhos e fantasias em torno dos  quais se erguiam os cenários de Hollywood, é um dado político que só se esclareceu com as atividades da Comissão McCarthy na área cinematográfica Ao realizar esta discussão e pela forma como o faz – introduzindo Jack Nicholson num tom  debochado e caricatural – Kazan mais parece estar purgando culpas de antigas colaborações com um sistema inquisitorial que fez de muitos diretores, escritores e atores vítimas e marginais do cinema americano. The last tycoon, produzido pelo magnata do cinema Sam Spiegel, roteirizado pelo dramaturgo inglês Harold Pinter, pode então ser desdobrado nas suas duas contribuições, a que vê o passado sob o ângulo da narrativa de Fitzgerald, como o melhor ponto do filme: a recriação perfeita de uma época onde a fantasia se confundia com a realidade, povoada por personagens biônicos feitos mais de celulóide que de carne e osso. E, de outra parte, como o encontro da onda  nostálgica do cinema comercial da atualidade – que realiza os anseios do produtor Sam Spiegel – e apresenta a releitura empreendida por Elia Kazan e Harold  Pinter  acerca da projeção deste passado sobre a atualidade e o futuro do cinema de espetáculo.

Qual seria, então, a sua modernidade? Na verdade, o todo poderoso Monroe Stahr – que encontra em Robert De Niro um intérprete perfeito – não é exatamente um magnata, mesmo porque não dispõe do capital que controla os meios de produção. Ele, e o filme o revela,  é apenas mais uma imagem criada entre as inúmeras forjadas por Hollywood em seus anos de ouro. Representando Irving Thalberg, David O. Selznick ou qualquer um dos férreos producers do cinema de outrora, ele é o que hoje chamamos um executivo e, na impossibilidade de possuir a mulher amada, a perfeita deusa sonhada, certamente irá dormir sozinho em sua casa sem teto e abandonada, à luz das estrelas.

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 19 de dezembro de 1977