Os reis do iê, iê, iê

 

Revendo A hard day's night, mais de dez anos após seu lançamento, tem-se a impressão de estarmos diante de um típico espécime do cinema da década de 60. Este cinema, do qual Godard expôs as contradições, estava ligado a uma estrutura industrial que propiciou a abertura de uma frente para o cinema independente. Assim, Os reis do iê iê iê representam o encontro de uma tendência comercial e as possibilidades de expressão de uma nova linguagem. A câmera na mão, os closes deformantes, um corte brusco na narrativa seriam o ponto comum de equivalência visual com as roupas diferentes, as atitudes extravagantes, e uma certa irreverência dos Beatles, que foram identificados como um dos participantes do movimento identificado como contracultura. E no entanto, Os reis do iê, iê, iê exibe ao mesmo tempo o maior produto de exportação da Grã-Bretanha naquele momento.

Do encontro das necessidades de um sistema com a emergência de uma nova linguagem - que nasce já como fruto de uma contradição fundamental – irrompe a síndrome de um novo discurso social. Como discurso contraditório por excelência, suas dimensões passam por fenômenos como Charles Manson, Abbie Hoffman e os Rolling Stones. Em A hard day's night esta linguagem está circunscrita apenas a uma alteração de padrões de comportamento. Ou poderia estar contida no sonho que o mesmo John Lennon - ator e personagem do filme - detectou e decretou como extinto, quando o movimento se defrontou com suas contradições exteriores.

Ainda exprimindo este sonho, sua proposição consiste em fazer um ridículo das situações, um certo ar blasé e de desdém para com a sociedade que faz dos Beatles o seu maior objeto de consumo. Caberia aqui uma comparação com um outro filme musical — que exibe um acontecimento subsequente dentro da contracultura - quando Mick Jagger se defronta com o registro do assassinato de um negro, perpetrado pelos seus capatazes Hell's Angels no Festival de Altamont. Pouco mais de cinco anos haviam decorrido e, no entanto, uma outra história do processo cultural "underground" já poderia ser contada.

Pode-se dizer que entre a mágica cinematográfica realizada por Richard Lester e o instante captado pela câmera de Gimme shelter um importante lapso histórico está registrado. Na verdade, os filmes posteriores de Lester apenas confirmaram um artesão intelectualizado. E A hard day's night é provavelmente o seu melhor filme, certamente o melhor encontro de um cinema modernista com a música que modificou o ambiente cultural da década de 60.

As melhores seqüências são aquelas que - apesar do caráter ficcional do filme - apresentam uma visão documentária dos quatro pop-stars, como o momento em que Ringo passeia pelos arredores de uma cidade e descobre a realidade da infância abandonada. Ou então quando, numa cena quase kafkiana, John Lennon conversa com uma admiradora que não o reconhece, e conclui que "ela parece conhecer John Lennon melhor do que eu". Um aforisma como o que o levou a dizer que "somos mais populares do que Jesus Cristo" e que sintetiza uma contradição de que o filme se dá conta, ao evidenciar o aprisionamento executado pela fama, o espaço delimitado entre o ídolo de sucesso e o público que o consome.

A hard day's night, título de uma música do mesmo nome, representa um instante na vida dos Beatles, que os historiadores certamente compilaram, e também caracteriza a segunda metade do nosso século: o encontro de uma nova forma de comunicação, o rock revitalizado da Inglaterra com uma ampla recepção popular. Sua narrativa descontínua é por certo o resultado de um inconformismo, a negação de valores estabelecidos, vista a partir de uma perspectiva nem sempre clara e um pouco inconseqüente. Provavelmente não foi por acaso que John Lennon — quem juntamente com Paul McCartney deu a consistência musical dos Beatles — após perceber o fim de um sonho, tenha afirmado e proposto na música Imagine, "Você pode dizer que eu sou um sonhador"/Mas não sou o único,/Eu espero que um dia você possa se juntar a nós/E o mundo será um só".

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 2 de julho de 1977