O Maior de Todos

 

Dirigido por Tom Gries – que morreu depois das filmagens – o filme se ressente de uma melhor montagem. Inspirado na autobiografia de Muhammad Ali, cujos direitos de produção foram comprados por John Marshall – produtor que anteriormente havia sido responsável por documentários sobre o tenista negro Arthur Ashe e a antiga Rodésia – o trabalho não consegue esconder as suas intenções de faturar comercialmente em cima do prestígio de Ali.

É conhecida a história de Cassius Marcellus Clay em 1960 quando, com a idade de 18 anos, voltava das Olimpíadas de Roma ostentando uma medalha de ouro como campeão de peso-pesado no box. Ao entrar em um bar, não pôde ser atendido por ser negro. Desde então, sua consciência carregada de "orgulho, não preconceito" como afirmou,  foi crescendo em busca da própria negritude.

O filme procura captar esta trajetória a partir dos dados de sua autobiografia. Episodicamente vão sendo arrolados o fortuito porém marcante encontro com os membros da seita dos Muçulmanos Negros e sua amizade com Malcolm X.  São evitadas, entretanto, as referências às divergências de Malcolm com Elijah Muhammad, que levaram à separação dos dois líderes. O esforço do diretor parece se concentrar na criação da figura de um tipico jovem americano, cuja extroversão se confunde com a necessidade de afirmação de si mesmo e de sua raça.

No que parece ser uma estratégia armada para tornar o filme um produto comercial mais rentável, a imagem de Ali é vinculada ao estereótipo do self-made man, do bom rapaz que luta para afirmar os seus princípios e cujo triunfo final, na luta contra George Foreman, representa a consagração da força de vontade. Com isso sua carga de agressividade é diluída e, de repente, o falastrão egocêntrico criado pelos meios de comunicação se transforma no  afável garotão que somente deseja ser aceito pela sociedade.

À qual imagem corresponderia o verdadeiro Cassius Marcellus Clay/Muhammad Ali? Será que ao estereótipo de um vociferante incendiário se estaria se sobrepondo hoje a imagem de um outro, acomodado às circunstâncias de uma próxima aposentadoria e de sua ligação aos princípios do Islamismo? Entre as duas, pode-se perceber que a vitória contra o demolidor Foreman expressa com clareza o que nem todos os lutadores de boxe foram capazes de compreender: nos momentos mais decisivos de nossa vida é sempre o cérebro que deve comandar os músculos.

    

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 1 de fevereiro de 1978