O Grand Prix da Morte

 

Na mesma linha de Ano 2000 – corrida da morte, Cannonball retoma o tema que fez o sucesso de Death race 2000, premiado no Festival de Cinema Fantástico e Ficção Cientifica da França. Seu discurso é o da estrada como a metáfora critica da civilização americana, o espírito competitivo, os interesses econômicos e políticos por trás da disputa, a velocidade e os mitos do sexo e da violência. Uma metáfora justa e precisa desde que Jack Kerouac colocou simbolicamente toda uma geração On the road e que Peter Fonda e Dennis Hopper estabeleceram os personagens de Easy rider como os heróis solitários e desagregadores dos costumes americanos.

Em relação ao discurso do filme anterior, Paul Bartel não o aprofundou; antes pelo contrário, reduziu e atenuou o alcance da metáfora. As estruturas narrativas se mantiveram idênticas: a estrada é o microcosmo social povoada de tipos e personagens loucos e desatinados cuja coerência reside numa forma de marginalidade já assimilada pelo sistema, a violência dá o tom de uma revolta irracional e o sexo permanece como o centro de todo um imaginário. Mas o aspecto mágico e o fantástico rigorosamente verdadeiro do filme anterior, sua parábola em tom de ficção cientifica em que a eliminação física dos  mais velhos e das crianças pelo corredor revelava o seu nenhum valor para a sociedade – o que os tornava como alvos preferenciais da gincana foram substituídos por uma trama com características mais ao nível do cinema policial.

Não deixando de ser a imagem critica da vida como modelo de estrutura competitiva conduzida no ritmo da velocidade, do maquiavelismo, implícito na competição, de que os fins justificam os meios, Cannonball amplia a ironia de Death race 2000. Esse filme expunha um clima de ficção política, representado por meio do antagonismo dos grupos que se organizavam à margem da estrada e dos revolucionários contra os promotores da corrida aliados ao sistema repressivo, que faziam da violência um simples meio de liberação de agressividade em uma sociedade reprimida. Assim, Frankenstein (David Carradine), ao matar o "Sr. Presidente", rompe com a lógica desta ordem e, unindo-se aos revolucionários, restabelece a paz com a proibição das corridas e o fim da violência. Cannonball. ao contrário, aponta a organização como a verdadeira forma criminal enquanto o personagem inconformado luta quase sozinho contra os interesses econômicos que cercam a competição. Sua vitória è finalmente caracterizada não como a afirmação do arrojo e da resistência mas como o resultado das maquinações urdidas nos bastidores, refletindo a ideologia maquiavélica de luta pelo poder e o dinheiro.

  Em tudo isto pode-se dizer que há certa lógica no cinema de Bartel, embora é provável que da passagem de um produção de Roger Corman, no filme anterior, para o patrocínio de Samuel W. Gelfman. o impacto de sua crítica tenha se diluído. Em um e noutro, os atores são basicamente os mesmos; David Carradine, Mary Woronov, Sylvester Stallone numa ponta, além da participação de Robert Carradine, irmão mais velho de David, e de Martin Scorsese, diretor de Boxcar Bertha, Taxi driver e Mean streets. Menos agudo e contundente do que Death race 2000, nem por isso Cannonball perde sua ironia: no final, a perspectiva para Coy Buckman (John Carradine) só pode ser mesmo - no meio de toda a falta de escrúpulos, dos carreirismos políticos e dos instintos destruidores - a saída individual do amor.

P. S. É preciso estar atento, em relação aos curta-metragens em exibição, para alguns acontecimentos. Um deles se refere certamente á qualidade dos filmes e à verdadeira função que os antigos "curtas" desempenharam para a criação de uma legislação que lhes fosse especifica. Estes eram filmes inquietos, renovadores, polêmicos, que funcionavam como um olhar atento e arguto sobre a nossa realidade. Nenhuma destas categorias se aplica ao curta-metragem O jangadeiro, de Julio Heilbron, agora transformado em documentário com um pretenso teor informativo. Filmes como este apenas ocupam um lugar que caberia a similares mais qualificados, o que estaria evitando assim que uma lei justa fosse utilizada por simples oportunistas.

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 21 de junho de 1978