O Bebê de Rosemary

 

Roman Polanski é mais um diretor de cinema do Leste Europeu que começa a fazer filmes em Hollywood. O Bebê de Rosemary é o quarto filme  do cineasta a ser exibido em São Paulo, o seu primeiro adaptado de um romance, escrito por Ira Levin. Um casal just-married (John Cassavetes e Mia Farrow) aluga um apartamento em Nova York, ela uma jovem mulher, ele um ator desconhecido. O mistério, entretanto está do outro lado da parede, na dupla de velhos com quem logo fazem amizade.

Polanski encontra nos Estados Unidos um cenário adequado ao seu cinema e é por isso que não seria errado dizer que realmente o meio-ambiente faz o cineasta. Na Nova York vista de cima – a apresentação do filme numa panorâmica sobre Manhattan que cita o velho cinema americano ou na Nova York vista de baixo a Broadway e a Radio City pode-se dizer que o cineasta encontrou um meio propício para a sua expressão. Indo do particular para o geral, o filme toma como tema não um casal jovem  ou um casal de idosos mas a América como um todo, uma mistura de puritanismo, sexo e dólar. Há alguma coisa de fabulesco na linguagem de Polanski, que se serve da fábula exatamente para destruí-la, toma-a para revelar a sua verdadeira face. Mais que o fabulesco há neste diretor um gosto irônico pelo parabólico, é verdade que aqui o parabólico se presta à sua destruição, uma destruição que revela o verdadeiro caráter religioso da história, como se estivesse se servindo da linguagem da mitologia para narrar um novo mito.

A trama do bebê de Rosemary, a escolhida por Satã para dar à luz ao seu herdeiro, poderia ser também a história da Virgem Maria, a escolhida por Deus para gerar Jesus Cristo. A história se repete e desta vez de forma trágica. No centro de tudo uma critica ao comportamento religioso. Assim como, segundo Karl Jaspers, o contrário da razão não é exterior à própria razão mas simplesmente um de seus componentes, assim como o contrário da razão não implica na sua negação mas justamente na sua afirmação, da mesma maneira também o Bem depende de sua antítese (o Mal) para sobreviver. A critica de Ira Levin e Polanski mostra que o raciocínio anticristão não nega o Cristo mas o afirma sob uma outra forma; portanto os adoradores do demônio não estão negando o Cristo, eles apenas o querem como filho de Satã. Para Polanski, o cristianismo teria também condicionado o seu oposto, os adoradores do demônio não rejeitam a idéia da salvação através do filho prometido; o que eles querem é que do cordeiro de Deus eles possam transformar o Cristo no bode de Satã. A antiga Belém é hoje Nova York e o pai não é mais um carpinteiro mas um ator o que evidencia uma concessão dos autores a um modismo dos nossos tempos.

O Bebê de Rosemary mostra uma América onde imperam os contrastes, onde as formas mais avançadas do progresso e da civilização coexistem com os cultos mais primitivos de outras divindades e aqui também se pode observar que a Razão personificada pela tecnologia condiciona por sua vez a Anti-razão, representada pelas formas mais retrógradas de religiosidade. Nos Estados Unidos da América, o país de maior renda per capita do mundo, modelo do desenvolvimento capitalista, se praticam rituais religioso das  mais remotas eras.  "Eu sou o espírito que sempre nega", e desta vez não é  Mefistófeles quem o diz mas a América do Norte.

O Bebê de Rosemary revela um Polanski observador de detalhes, um homem mais atento aos problemas de seu tempo, depurado dos modismos de encenação de Repulsa ao Sexo. Foi preciso que êle encontrasse um décor mais à altura de sua linguagem, um ambiente mais adequado ao seu universo estético para que o seu mais recente filme pudesse ser a radiografia de uma sociedade que se movimenta na órbita do Bem e do Mal e onde se observa uma estranha e irracional combinação de religião, sexo e dólar. Admirável a ultima imagem do filme, uma imagem simbólica! Rosemary embala o recém-nascido, filho de sua união com Satã, reconhecendo na monstruosidade que gerou a sua própria imagem.

  

                         Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal Diário de S. Paulo em 27 de maio de 1969