Nenê Bandalho

 

Decorridos mais de cinco anos após a sua conclusão, é finalmente lançado Nenê Bandalho, provavelmente o derradeiro produto  do extinto cinema  da "Boca do lixo" paulista. Localizado historicamente na segunda metade da década de 60, este ciclo constituído de filmes baratos rodados em preto-e-branco – não sobreviveu à precariedade de suas próprias condições de produção. Agrupado em torno das pequenas produtoras situadas na região de São Paulo que lhe deu o nome, o cinema da "Boca do lixo" foi o equivalente paulista do udigrúdi carioca, ocorrido na mesma época.

As propostas destes dois movimentos tinham pontos em comum: buscavam uma alternativa artesanal ao cinema industrial estrangeiro, numa época em que as perspectivas técnicas e comerciais do novo cinema brasileiro ainda eram muito incipientes. Pode-se dizer que o cinema destes dois grupos era mais de idéias do que de espetáculo, seus filmes representavam uma recusa do modelo hollywoodiano e seus similares e se caracterizavam por serem rústicos e mal acabados – a despeito de alguns requintes de linguagem na busca de uma alternativa tropical à grande indústria internacional do cinema. Esta linguagem não era, claro, somente fruto de uma posição intelectual, mas a conseqüência do exercício de um cinema experimental com orçamentos baratos, atores pouco conhecidos, equipe técnica reduzida e roteiros que possibilitavam filmagens num reduzido espaço de tempo.

Nenê Bandalho, produção de 1971 dirigida por Emílio Fontana, só agora é lançado, depois de circular vários anos nos corredores da Censura. E passado tanto tempo, suas inovações de linguagem, suas audácias de mise-en-scène soam como um frustrado Acossado tupiniquim. Baseado num conto de Plínio Marcos, narra a perseguição a um bandido estuprador de mulheres, entrecortando a narrativa com rememorações dos seus traumas de infância e adolescência. Filmado em 16 mm e posteriormente ampliado para exibição comercial, sua linguagem é fragmentária e anárquica e é justamente dai que resultam os seus melhores momentos. Momentos que, embora lhe confiram interesse, não são o bastante para defini-lo como uma obra orgânica. Seqüências bem realizadas, como a do parque de diversões ou a da namorada que se recusa a viver com o bandido estão em flagrante contraste com a do cerco policial, cuja gratuidade e falta de seriedade aparecem como uma grotesca antecipação das seqüências de Um dia de cão.

Esta mesma gratuidade se revela na introdução das cenas de jornais de atualidades, com filmes das guerras da Coréia e do Vietnã. Trata-se de valorizar o personagem do bandido, dando à sua perseguição um caráter grandioso e bélico, ou então da intenção de estabelecer um paralelismo entre a caçada a Nenê Bandalho e outros acontecimentos políticos de nossa época? Quaisquer que sejam os objetivos do diretor, a utilização deste recurso aparece como um expediente fácil e retórico. Apesar de todas estas deficiências, Nenê Bandalho pode e deve ser visto como um esforço de construção de um cinema nacional independente e uma legítima tentativa de contar uma história verdadeiramente brasileira.

  

  Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 9 de março de 1977