Lúcio Flávio: A violência e as aparências

 

Lúcio Flávio incide sobre questões que extrapolam a crônica policial: a violência urbana, suas causas e conseqüências; o banditismo e a marginalidade; as atividades ilegais da polícia; as "vendas de proteção", "os esquadrões da morte" e muitas outras. Fazendo de Lúcio Flávio Vilar Lírio o personagem-síntese das contradições do universo social das grandes cidades, seu núcleo repousa antes na exposição da violência do que na análise das suas origens e desdobramentos. Psicólogos, criminalistas e sociólogos, entre outros, parecem concordar que violência gera violência em escala geométrica. O sucesso do filme policial sempre foi ambicionado pelo cinema brasileiro desde – para ficarmos num fato policial verídico contemporâneo – O assalto ao trem pagador de Roberto Farias e certamente não foi por acaso que Hector Babenco disputou com Reginaldo Farias – cujo Barra pesada obteve sucesso com a mesma temática – a aquisição dos direitos do livro de José Louzeiro. Nenhum deles, entretanto,obteve a recepção de Lúcio Flávio e este  fato demonstra, além de uma vitória do cinema brasileiro na luta pelo seu mercado, o aperfeiçoamento de nossos recursos técnicos capazes de permitir uma qualidade de espetáculo e, sobretudo, o interesse cada vez maior do público para com assuntos da nossa realidade.

Este interesse impõe necessariamente um compromisso que o filme de Babenco nem sempre cumpre. Para que isto acontecesse seria provavelmente necessário que o diretor colocasse o seu cinema a serviço de uma posição mais reflexiva, privilegiasse menos os artifícios de estilo – que não chega a ser propriamente autoral – em proveito de um aprofundamento das reações humanas mais recônditas, esforçando-se em mostrar – além do seu apelo comercial de ação e violência – o pano de fundo em que se movem suas criaturas. Uma opção ética que pudesse transcender  as elementares antinomias do filme, de que "bandido e polícia é a mesma coisa" – proferida pelo policial Moretti (Paulo César Pereio) – ou "bandido é bandido, polícia é polícia" – conclusão de Lúcio Flávio depois de sua última prisão.

Aqueles que se comprazem em descobrir em planos e seqüências isolados um outro sentido menos explícito do filme, poderão encontrar nestes momentos um indício da visão de Babenco. Se isto for realmente verdade, seu discurso não vai além das aparências,  é  apenas um epifenômeno cinematográfico cuja existência rende tributo àquele que a inspirou. Se, como dizia Karl Jaspers,  "o contrário da razão não é exterior à própria razão", e mocinho e bandido fazem parte de um mesmo modelo social e cultural – como propõe a película – não adianta então inverter a proposição e transformar o marginal em vítima e policiais em vilões. Apesar dos elementos de qualidade – sua oportuna embora um pouco descaracterizada, música de John Neschling – as interpretações convincentes, a fotografia e a qualidade da realização artesanal, Lúcio Flávio fica na superficialidade das suas aspirações comerciais.

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em  10 de abril de 1977