Jesus de Nazaré: A estética das catedrais

 

São chamados Sinópticos os evangelhos de S Mateus, S. Marcos e S. Lucas porque permitem uma vista de conjunto, dada a semelhança de suas versões. Zeffirelli e seus roteiristas Anthony Burgess e Suso Cecchi D'Amico optaram pelo único evangelho não-sinóptico, escrito pelo discípulo João, aquele em que a carga poética e filosófica se sobrepõe ao registro fatual dos acontecimentos. "No princípio era o Verbo, e o Verbo se fez carne e habitou entre nós" começa a narrativa do apóstolo João. No original grego do Novo Testamento, Verbo é Logos: palavra, discurso, pensamento. Conduzindo o espírito do seu filme sob a inspiração da revelação e da profecia judaicas, Zeffirelli mostra um Cristo que assume a linguagem dos homens e a eles dirige seu discurso.

O Cristo do Evangelho de João sobressai diante dos outros não só pela organização não-cronológica da vida de Jesus de Nazaré, mas por buscar conferir à sua personalidade uma dignidade ontológica. um modo de ser e de pensar que caracterizam a sua aparição como um fenômeno radicalmente novo na história da profecia judaica. Esta profecia já tinha sido revelada por Isaías — seiscentos anos antes da sua consumação — mas o que tornou a sua realização nova e inesperada foi o caráter que ela assumiu: o Cristo que os judeus esperavam seria um novo Salomão, o Messias coroado e grandioso

Combinando com a revisão operada sobre a figura do Messias e que teve como núcleo de irradiação o Concílio Ecumênico Vaticano II, Pasolini e, agora, Zeffirelli propõem a sua humanização. Nascido sob a égide da pobreza, Jesus de Nazaré representa uma quebra de continuidade na rígida lei de Moisés estabelecida no Velho Testamento, sua norma não é o rigoroso "olho por olho, dente por dente" mas o respeito à liberdade e à autodeterminação.

Conforme dizia o Grande Inquisidor de "Os irmãos Karamazov" de Dostoiévsky, Jesus Cristo poderia ter iniciado uma revolução social a partir da multiplicação dos pães e do Sermão da Montanha, mas preferiu o respeito à liberdade de iniciativa de cada um. A igreja erigida em seu nome não será, segundo o Grande Inquisidor, a afirmação de sua moral de "amor e liberdade" mas se erguerá fundada nos princípios da Fé, do Temor e da Autoridade.

Zeffirelli opta certamente pelo Cristo humano, cultivando no entanto a permanência da "lenda sagrada" que constitui o tom das narrativas de motivos bíblicos. Assume de certa maneira o procedimento adotado por Claude Lévi-Strauss na introdução de Mythologiques; "este livro que é um livro sobre os mitos é, à sua maneira, também um mito". Utilizando a forma do objeto que está narrando, o diretor, embora revelando o homem, reforça o mito, sob a forma da profecia e do ponto de vista da imagem, com longas lentes "zoom" que abrem ou fecham sobre personagens vagando por imensas paisagens.

Pode-se dizer que esta estética de Zeffirelli se aproximaria bastante da grandiosidade e do propósito de uma catedral medieval: buscar o espanto, o deslumbramento do homem a partir da sua pequenez diante da gigantesca escala do sobrenatural e do divino contidos na representação da catedral. O diretor, amparado em ótimos recursos de produção, emprega um excelente parque ótico e esta linguagem tem por função constituir um verdadeiro mural dos cenários onde Cristo viveu, a minuciosa reconstituição de paisagens, roupas e símbolos, com o objetivo de criar uma sensação de realidade e familiaridade. Entre estas duas aspirações se situa Jesus de Nazaré: a permanência do mito e a sua transgressão, o caráter humano da revelação. O Messias inesperado que segundo o autor "os cristãos sempre tiveram dificuldade em aceitar; o Homem, o ser humano".

                                                                                                      Sérvulo Siqueira

Matéria publicada no jornal O GLOBO em 13 de março de 1978