Fuga no século 23

 

A fórmula de Logan's Run, adaptado da obra de William F. Nolan, está contida num estereótipo básico das novelas tradicionais de ficção científica: uma mesclagem entre o velho e o novo a a contradição entre mundo interior e universo exterior. Seu arquétipo parece residir no argumento de Alphaville de Jean-Luc Godard, com a diferença de que  enquanto Lemmy Caution – o personagem de Godard – vinha  do mundo exterior em missão para o universo fechado e automatizado de Alphaville, Logan, é um vigia que sai das gigantescas cúpulas (uma recriação dos domos geodésicos de Buckminster Fuller) para descobrir uma nova forma de existência no mundo exterior.

Em Fuga no século 23 a sociedade já proviu os elementos fundamentais da existência, embora sua estrutura produtiva exija a eliminação daqueles que já ultrapassaram a idade de 30 anos. Logan primeiro parte à procura do Santuário, refúgio dos que se evadiram deste programado universo concentracionário e, em seguida, conhece uma vida exterior onde as pessoas podem envelhecer. Aqui, como em Alphaville, a forma totalitária se exerce também por meio da palavra, uma vez que o próprio termo santuário não é sequer conhecida.

De outra parte, os elementos ficcionais de Logan's Run são na realidade apenas pretexto para uma prodigiosa demonstração de efeitos especiais, grandes cenários e recursos de produção de um cinema de espetáculo. Neste sentido, importa apenas incorporar poucos elementos novos numa estrutura já bastante padronizada. Não faltam, entretanto, algumas boas idéias, como a seqüência de um estranho museu em que as pessoas são congeladas como  reserva para um futuro reaproveitamento do corpo humano ou o momento em que Logan é interrogado por um cérebro eletrônico. Aqui também cabe uma comparação com 1984, do mesmo diretor – Michael Anderson – que é mais conseqüente na sua denúncia do totalitarismo tecnológico.

A escolha dos atores principais - Michael York e Jenny Agutter- parece identificar a busca de um público jovem, emoldurado pela love-story do filme. Enquanto que o velho vivido por Peter Ustinov – com seus gatos e versos de T. S. Elliot – representa a persistência da memória num universo fechado e imediatista.

    

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 8 de junho de 1977