Flash Gordon no planeta Mongo

 

Realizado em 1936, Flash Gordon marca o encontro do cinema com um dos seus mais fascinantes meios de expressão: as fábulas de ficção científica. Narrando a viagem de Flash, Dale Arden e do professor Zharkov ao planeta do imperador Ming e suas aventuras com homens-pássaros e outros seres da imaginação de Alex Raymond, este seriado que deleitava os adolescentes da época trazia uma imagem por vezes ingênua das viagens espaciais. Não é entretanto o grau de verossimilhança que conta, mas a capacidade de sua fantasia, que ainda hoje conserva um encanto semelhante às velhas fotografias dos álbuns de família.

Esta coletânea de 12 episódios da série – lançada na mesma época de Guerra nas estrelas, do qual é uma legítima matriz permite outras comparações. Hoje, quando o cinema uma arte industrial se vincula à tecnologia dos efeitos especiais fazendo dos especialistas do assunto muitas vezes a estrela máxima de algumas produções, Flash Gordon pode ser visto como o antípoda desta tendência. Seus recursos não dependem da tecnologia mais avançada mas são cinematográficos por excelência: uma bricolage para usarmos o conceito de Lévy-Strauss que fabrica o seu produto apenas com a "prata da casa"; com a banalidade de artifícios de que dispõe. Daí o caráter muitas vezes naïf", primitivo, que assumem seus truques, seus personagens bizarros, suas imagens de foguetes de lata projetadas em superimpressão, seus monstros filmados por meio de de artifícios óticos.

Este procedimento técnico utilizado para contar uma história de viagens ao espaço estabelece uma moral no roteiro que narra: no momento em que a Terra é ameaçada de destruição pela ação de raios cósmicos, o desacreditado cientista Dr. Zharkov, Flash Gordon e Dale Arden se projetam com seus foguetes de miniatura na tentativa de desviar a trajetória do planeta Mongo. Envolvidos em estranhas aventuras, seu comportamento não assume o belicismo dos personagens e da trama de Star wars; ele se caracteriza por uma dimensão mais humanista. No limiar da Segunda Guerra Mundial, que iria explodir a bomba atômica e causaria problemas de consciência nos físicos responsáveis pela sua descoberta a amargura de Robert Oppenheimer é um exemplo a recusa do cientista Zharkov em colocar seu saber a serviço da destruição e da tirania é o atestado de sua moral. Na simplicidade dos seus recursos, na ingênua fantasia de sua fábula, na ética humanista dos seus personagens, Flash Gordon integra o tesouro das imagens do século XX, ainda em plena juventude do cinema falado.

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 29 de março de 1978