Experiências proibidas de uma jovem sueca

 

País de uma das maiores rendas per capita do mundo, a Suécia também tem sido vista como a sociedade permissiva por excelência. De seu cinema contemporâneo - cujo nome mais ilustre, Ingmar Bergman, não se encontra no momento no país por causa de problemas com o fisco — conhece-se pouco no Brasil, à exceção de alguns filmes de Bo Widerberg e Jan Troell.

Realizado em 1971, Experiências proibidas de uma jovem sueca, cujo titulo em inglês é mais discreto, se revela apenas um guia postal turístico sobre o famoso paraíso sexual escandinavo. A produção é de uma empresa de nome Cannon Corporation, o que nos leva a acreditar que este filme, com alguns inserts de sexo para tornar agradável seu consumo, seja simplesmente mais um veiculo de publicidade de outros produtos heterogêneos.

O resultado é um  longa-metragem de propaganda filmado em alegres discotecas, restaurantes com vista panorâmica e lugares propícios à meditação, velhas cidades onde se pode passear de bicicleta e onde também não faltam manifestações de um machismo, que segundo se faz crer, é característica mais tropical e latina do que nórdica. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 30 de março de 1977

 

Fantasias eróticas

 

Se lampejos ou intuições ligeiras sempre produzissem bom resultado, Alla mia cara mama nel giorno dei suo compleano poderia resultar num bom trabalho. No entanto, entre a idéia e a realização, as intenções se perderam na grossura de sua encenação. A sátira da aristocracia apegada a velhos preconceitos morais e religiosos termina por revelar uma visão caricatural e euforizante embalando uma pornochanchada.

Numa encenação que acentua constantemente o lado grotesco, a direção de Luciano Salce consegue minimizar as possibilidades de comédia contidas na história, como na seqüência da sátira ao hitlerismo do comportamento da mãe. Sua preocupação parece ser a sustentação do desempenho dramático dos dois intérpretes principais, Lila Kedrova e Paolo Villaggio. Sobre os dois recai o conflito principal, entre a mãe autoritária e possessiva e o filho neurótico e submisso. Deste conflito, a direção não soube extrair o verdadeiro tragicômico, sujeitando-se à irresponsabilidade do grotesco e à vulgarização do falso apelo sexual.

Apenas mais uma rotineira produção italiana, Fantasias eróticas não passa de um produto supérfluo impingido pelo consumo. A atriz Kedrova é apenas mais uma caricatura no grotesco de Luciano Salce, diretor que no momento deve estar realizando um outro similar aqui no Rio de Janeiro. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 14 de junho de 1978

 

O outro lado da meia-noite

 

História de un amour fou (em francês, para ficarmos no nível da personagem) The other side of midnight é um melodrama e como quase todos os outros com final moralista. Sua estrutura repete quase literalmente o modelo dos dramas sentimentais do cinema americano das décadas de 30 e 40, fazendo do personagem feminino um protótipo trágico do desejo de libertação da mulher, que foi desfraldado pelas bandeiras do Women's Lib nas décadas de 60 e 70. A tragicidade do personagem feminino é, na verdade, uma condenação e decorre do moralismo estrito do argumento: a permissividade de Noelle/Marie-France Pisier, sua rendição ao fogo fátuo da paixão e do prazer, transformam-na em instrumento do poder e a condenam física e moralmente.

Constantin Demeris/Raf Vallone é a contrapartida do sexo e da paixão de Noelle, a fria arrogância do poder, o homem que afirma a vingança: seu lema não é o "olho por olho" mas sim "o coração por um olho". Romantizando os personagens de uma cover-girl, que busca a ascensão social a qualquer preço e de um magnata grego refinado e obsessivo, O outro lado da meia-noite tem a pretensão do sucesso comercial: sua referência está nas explosões de lágrimas levantadas por E o vento levou e Imitação da vida, de Douglas Sirk. Para tanto foi necessário estabelecer o tom melodramático da história e a impossibilidade do amor de Noelle e Larry/Jon Beck.

Certamente o público sentirá pena da personagem: a loucura frenética de sua vida é mais a conseqüência do seu obsedante amor pelo aviador Larry e até os métodos usados para obtê-lo poderão ser relevados: afinal, no amor como na política "os fins justificam os meios". Mas a desgraça de Noelle é também a exaltação de Cathy/Susan Sarandon, a vitória final da pacata jovem de classe média americana, o amor tranqüilo contra o passional. Ao procurar assimilar o lado mais aparente do feminismo, a moral machista do filme parece residir no personagem do aviador Larry: debochado, cínico e mau-caráter ele é, no entanto, o centro de atração das duas mulheres, o objeto de desejo por quem lutam. Operando um aparente descentramento nas relações homem-mulher o que não traz por certo nenhuma novidade, já que o homem continua no vértice dessas relações - agora não mais como caçador mas como caça, O outro lado da meia-noite,  adaptada da obra homônima de Sidney Sheldon, é apenas uma história sentimental que transcorre da II Guerra até os dias de hoje, dirigida por Charles Jarrott realizada dentro de uma estrutura dramática calcada na tradição teatral e novelesca musicada por Michel Legrand e que teve o mérito de reinaugurar ontem o cinema Rian, após um período em que esteve para ser demolido. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 23 de dezembro de 1977

O país azul

 

No último quarto do século XIX, os espíritos mais aventureiros europeus saiam em busca de novas fronteiras. Baudelaire percorria o mundo em viagens ou se refugiava nos "paraísos artificiais" do vinho e do haxixe. Gauguin buscava recompor o sonho da harmonia perdida nas cores e formas do Tahiti e Rimbaud, depois de uma ascensão fulminante nos salões literários de Paris, se internava na África como contrabandista de armas. Cem anos depois, a classe media francesa parece descobrir as delicias do equilíbrio ecológico e inicia um sinuoso caminho do campo. A formação de partidos políticos com programas de defesa ecológica, a campanha - sensacionalista, dado o seu caráter extremamente restrito - de Brigitte Bardot pela sobrevivência das focas, são algumas destas manifestações.

Jean Charles Tacchella, cujo cinema parece refletir um padrão de comportamento do cidadão francês de classe média mais evoluído, toma como ponto de partida esta migração: o sonho de uma saudável vida no campo vista através da perspectiva padronizada do cinema comercial a que está afeito. Estão presentes os mesmos temas de Primo, prima; tradicionais costumes familiares confrontados com os sintomas incipientes de novos hábitos morais, o velho já folclórico de tão antiquado e um novo nem tão moderno assim. Tacchella prossegue, então, com estes argumentos sua análise de superfície da sociedade francesa.

Uma análise que se poderia chamar complacente, que se limita à verificação de alguns de seus estereótipos e maneirismos mais típicos como, por exemplo, a descrição epidérmica daquilo que a narrativa de Buñuel leva ao extremo da crítica. Montado como um produto de consumo rápido, especialmente para a platéia francesa à  quem principalmente se destina Le pays bleu não poderia deixar de reproduzir uma espécie de "consciência feliz" sublimada, disposta a aceitar os estereótipos que a indústria do entretenimento lhe oferece: velhos sucessos musicais, personagens simpáticos e comunicativos encaixados numa linguagem que não ousa transgredir os mínimos padrões de bom comportamento do campo e do contracampo, do plano bem composto emoldurado por uma bela paisagem campestre.

No programa do Cinema -2 e, finalmente, dando cumprimento às resoluções 18 e 19 do Concine que determina a obrigatoriedade de exibição de um curta nacional para cada filme estrangeiro programado, o filme de Haroldo Marinho Barbosa, Uma lição de moral. Autor dos longa-metragens Vida de artista e Ovelha negra e de uma excelente recriação de Qorpo Santo. Eu sou vida, eu não sou morte, este seu curta é uma reflexão, conduzida em tom de monólogo por Wilson Grey, que poderíamos chamar sem intenção pejorativa, de "filosofia de botequim". Entre uma cachaça e outra, em um lúcido delírio cada vez mais crescente, o personagem descobre que "a filosofia consoladora, a pedra filosofal é a descoberta da imortalidade da alma". (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 12 de abril de 1978

Petúlia

 

Dick Lester está novamente em terra. Da Roma dos Césares saltou no espaço e no tempo para a América 1968 DC. Isto para que o cinema assistisse mais uma vez ao "encontro de uma realidade com o seu meio de expressão" : para uma realidade amparada na técnica, igual dose de um cinema servido por uma grande quantidade de pirotécnica mecânica.

Acontece que a realidade acabou sendo vista por telescópios de observatórios de astronomia, tais como os de Jodrell Bank, na Inglaterra. Com lentes embaçadas. É verdade que o embaçamento é proposital, porque com isso Dick julga que poderá aspirar a um lugar no Panteon dos cineastas modernos. Transportando-se da Roma da antiguidade, provavelmente na máquina do tempo de H. G. Wells, desembarcou em Nova York acompanhado de Julie Christie. Sustentado por uma infra-estrutura eficiente, como costuma acontecer no cinema americano San Francisco, excelentemente fotografado por Nicholas Roeg (B.S.C.) e a boa música incidental de John Barry porém com uma mentalidade de cinema amador (faltou-lhe talvez o charme de Beto Rockefeller), Lester não consegue ver a América do Norte  além dos limites da ótica que aplica sistematicamente ao cinema: um puro fenômeno mecânico.

As lentes deliberadamente desfocadas não conseguem encobrir a visão superficial que Lester ex-pianista de navios, depois transformado pela publicidade e avalizado por uma certa critica no maior comediógrafo do cinema moderno - possui da América e de sua civilização tecnológica. Para Lester, que representa os USA como uma sociedade massificada pela televisão - em Petúlia a TV é onipresente, um aparelho de televisão está sempre enquadrado pela câmera – não valeu o esforço de volta. Afinal, para que tanto trabalho, se Dick Lester poderia ficar em Londres, assistindo as transmissões da TV americana via satélite? Talvez pudesse ter aprendido que fragmentar a narrativa não é romper a sua linearidade. (SAS)

Publicada no jornal Diário de S. Paulo em 10 de junho de 1969

Uma família em conflito

 

Numa linguagem melosa e açucarada, com planos ao por do sol, fusões de cenas românticas, pretensiosas montagens de atração ao estilo de Eisenstein, The McCullochs é na verdade apenas um pretexto para a exibição narcisista de Max Baer, ator, produtor, roteirista, argumentista e diretor do filme. Sua intenção, certamente oportunista, parece ser a de dirigir uma mensagem a um dentre os muitos grupos étnicos que compõem o espectro da sociedade americana:  os escoceses e seus descendentes.

Fazendo uso dos mais banais clichés,  sua criação está na invenção de uma família – os McCullochs que gira em torno de seu chefe, o violento e ameaçador patriarca J. J. McCulloch. A trama se transforma em uma oportunidade para Max Baer emitir suas opiniões sobre o que considera os conflitos de nossa época: o choque de gerações, a perda da virgindade da mulher, as relações entre patrões e empregados etc. No entanto, mais do que uma reflexão séria, sua preocupação está em compor um bizarro produto final recheado pelos mais diversificados elementos da cultura de massa: da comédia de pastelão ao dramalhão radiofônico. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 28 de junho de 1978

 

Sérvulo Siqueira