Alucinados do som e da guerra

 

Típica idéia caça-níqueis. Depois de a Metro realizar a série That's entertainment, coletânea de velhos sucessos musicais, o produtor Russ Regan descobriu um meio de veicular antigos filmes de guerra da Fox: unir a documentários de batalhas ou a histórias de exaltação patriótica, caricaturais e de moral simplista, a música recente e de constante sucesso dos Beatles.

Ambos os produtos conservam o seu encanto: a música de Lennon e McCartney, forma de expressão das mais vigorosas e transformadoras da década de 60 e os filmes de guerra, que atestam o lado participante e mobilizador do cinema como veículo de massa. Mas, como lembrava André Malraux em famoso ensaio, "por outro lado, o cinema tem uma montagem". Não basta fundir num mesmo tempo narrativo os eventos das décadas de 40 e 60, seria necessário também  que um acrescentasse ao outro um elemento significante.

No entanto, as músicas que celebrizaram os Beatles nem sempre encontram intérpretes â altura dos seus criadores – os Bee Gees e The Four Seasons, entre outros, estão nesse caso - e, de outra parte, pode-se apontar muitas lacunas na escolha dos filmes de guerra. Como produto final, All this and World War II mais parece uma ilustração visual para a exibição de conjuntos de rock. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 22 de março de 1977

 

Nas ondas do surf

 

Se estrutura e superestrutura sempre  se equivalessem, se a qualidade de um produto estivesse na razão direta de seu empenho publicitário, o documentário de Lívio Bruni Jr. sobre surf, skate e sky-surf estaria plenamente realizado. Inspirado nos modelos americanos, o planejamento de marketing procurou atrair sobretudo o público mais jovem.

Doce a ilusão, no entanto, de quem acredita que o filme ofereça um mínimo de informação ou o espírito de investigação que o documentário possibilita, com a fluidez de suas câmeras na mão e o registro em som direto. Nada ou quase nada - em mais de 80 -minutos de projeção - transcende o simples registro de ondas subindo e caindo e de espectadores assistindo pateticamente o espetáculo na praia.  Uma  documentação exaustiva de imagens contrapontuada pelo exercício sonoro do conjunto musical A Cor do Som, que revela apenas o mero balbuciar de uma linguagem audiovisual. Uma única seqüência  -rodada num só plano - e cuja granulação indica ter sido ampliada a partir de uma película em 16 mm, cria a tensão que o estado de espírito da platéia do cinema justifica: no momento em que um surfista entrevista um fabricante de pranchas que usa uma máscara de proteção, a câmera detalha a sua obra enquanto ele dá informações sobre o seu processo de trabalho.

No mais, as ondas são tantas que a sala de cinema se transforma mesmo num ponto de encontro. Ou de confronto: a sessão de estréia  do filme no Studio Paissandu parecia o teatro de operações para uma pequena guerra de turmas. Enquanto papéis, cigarros acesos e outros objetos não identificados choviam sobre as cabeças do público, as ondas  cresciam e apareciam na tela embalando os visíveis propósitos comerciais do produtor-diretor. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 18 de julho de 1978

 

Powaqqatsi

 

Powaqqatsi - Vida em transformação (também “vida sob influência de um feiticeiro") - cuja exibição ao vivo, com orquestra e vocais, se celebrou no último dia 16 de junho, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro - é o segundo filme da trilogia qatsi (vida no idioma hopi, dos índios americanos), concebida por Godfrey Reggio, seu diretor e produtor. Exibido em festivais e circuitos comerciais no mundo inteiro e precedido por intensa expectativa criada pelo êxito de Koyaanisqatsi - Vida em desequilíbrio Powaqqatsi não conseguiu alcançar o mesmo sucesso comercial das bilheterias nem tampouco semelhante aclamação da crítica.

Incompreensão do público diante da percepção inovadora de Reggio ou incapacidade do diretor em compreender e articular a sua visão do terceiro mundo, sobre o qual se detém o filme? Planejado inicialmente como um épico visual em cinco movimentos,  Powaqqatsi tinha como núcleo central do projeto a crítica da assimilação da tecnologia mais avançada operada pelos países do terceiro mundo, ou o que o diretor chamava de “Monumentos do Norte" (a transposição de técnicas sofisticadas para um cenário onde elas perdem sua função ou são mal utilizadas). Por isso o título inicial do filme era Norte-Sul: A vida na lâmina (North-South: Life on the Edge) e assim chegou a ser anunciado até pouco antes do seu lançamento.

Depois de pronto e já com seu título definitivo, Powaqqatsi procura criar um elo de identificação com a nossa realidade, ao nos reapresentar as imagens de um garimpeiro sendo conduzido como um Cristo no inferno de Serra Pelada, o falso paraíso do ouro criado nos tempos da ditadura.

Neste enorme “Cemitério debaixo da lua" (para usarmos a expressão de George Bernanos), em que se converteu a vida cultural no nosso país nestes tempos de anestesia mortal do governo Collor, só nos resta receber de volta - como produtos acabados - as imagens da matéria prima miserável de degradação, opressão e miséria que fabricamos na nossa triste realidade. Como não produzimos nada - o número de longa metragens realizados no Brasil no ano passado parece que foi de dois - os filmes progressistas das nações mais avançadas substituem os nossos produtos culturais, oferecendo-nos - através de artifícios glamurizados do High Tech - uma versão simplista da nossa cultura e sociedade.

Será que com isso satisfazemos uma voluptuosa sede de imagens da nossa cultura, escapando ao universo concentracionário da TV Globo? No final do filme, como se fora um posfácio, um letreiro explica que  Powaqqatsi significa "uma entidade ou um modo de ser que extrai a energia dos outros com o objetivo de alimentar suas próprias forças". De acordo com este conceito, enquanto nós fornecemos a energia, os powaqqatsi são os nossos governantes e os nossos colonizadores. Quando deixaremos de alimentar nossos invasores, que aqui chegam com suas expedições punitivas em busca de ouro, prata, dólares, sangue e imagens de nossos infortúnios, dos quais eles mesmos são a causa direta?

Quando, então e finalmente, o feitiço se voltará contra o feiticeiro?

 

Publicada no jornal Toque Cidade em junho de 1992 

 

Sérvulo Siqueira