A força vigilante

 

A história de dois irmãos de nomes bíblicos - Benjamin e Aaron - e suas personalidades divergentes. Ben (Jan-Michael Vincent) se ajusta a uma pacata vida de comerciante e mecânico em uma outrora sossegada cidade do interior dos EUA, hoje transformada em turbulento lugar onde o petróleo gera especulações e os negócios ilícitos aumentam. Um conselho de cidadãos se reúne e decide convocar Aaron (Kris Kristofferson), antes persona non grata ao local, hoje um herói da pátria por sua corajosa participação na guerra do Vietnã.

Ponto de partida do filme, a história já evidencia um tema freqüente no moderno cinema comercial americano: a violência vista como pretexto para belas imagens de destruição e objeto de reflexão (superficial) em suas causas e conseqüências. A chegada de Aaron institui a violência organizada da "força vigilante" e seus agentes. E novamente,  o mesmo Ben se vê na contingência de - entre aqueles que escaparam à sanha do irmão e uma vez mais repetindo a parábola bíblica de Caim e Abel - reconvocar os últimos justos da cidade para que se oponham ao poder superpolicial do esquadrão de Aaron.

Neste contexto, com referências bíblicas e históricas, a seqüência derradeira exibe uma imagem da escatologia e sugere, nos versos de uma balada,  um instante de reflexão. Uma reflexão que poderia ser mais profunda, não estivesse o diretor George Armitage mais preocupado com o espetáculo de efeitos especiais pirotécnicos resultantes da explosão de granadas e bazucas, fuzis semi-automáticos, metralhadoras, corpos caindo, corpos sendo eletrocutados e reservatórios de petróleo indo pelos ares.(SAS)

Publicada no jornal O Globo em 13 de julho de 1977

 

Baby Sitter

 

Há dois anos alguns países da Europa conheceram uma sucessão de raptos e seqüestros envolvendo pessoas ligadas aos círculos das finanças.

O diretor francês René Clement, e o produtor italiano Carlo Ponti uniram os seus interesses e fizeram esse filme que assume uma baby sitter como personagem principal, esta figura que sobrevive à margem do fausto da burguesia européia.

Um filme de truques  e efeitos cinematográficos. Uma starlet (Sydne Rome) desprezada por seu amante — um rico dono de supermercados na área de alimentação em Roma — é arrastada numa trama de rapto e seqüestro do filho do empresário. O ponto de partida é uma oferta  de trabalho a uma baby sitter (Maria Schneider), estudante de artes plásticas que vive em Roma com dificuldades financeiras e depende do dinheiro do pai que está no Senegal.

Do encontro destas necessidades - aliadas à frustração de um ator decadente (Robert Vaughn) e sua insatisfeita mulher (Nadja Tiller), dirigidos pelo cérebro do advogado do industrial (Armando Francis) — nasce o plano. A mão armada é entregue a um demente sanguinário (Vic Morrow), que vigia como um cão feroz a casa onde a baby sitter e o menino Boots estão confinados.

0 argumento, no entanto, não explica muita coisa. Este é certamente mais um pretexto para a exibição de alguns macetes já conhecidos. Do diretor René Clement, sabe-se que tem a reputação de ter sido sempre um encenador habilidoso e que já apresentou alguns momentos de brilho. Sua contribuição parece estar em certos preciosismos de mise-en-scène, dignos talvez de um virtuose no ocaso da carreira: algumas elipses e outros achados de linguagem, como a cena da banheira e do cachorrinho no refrigerador.

Más é provavelmente entre os personagens (embora mal explorados) que está o melhor do filme. Uma colagem de vários outros filmes – que certamente renderia mais em outras mãos - onde se pode destacar a personagem da starlet, a baby sitter e sua afetuosa relação com o garoto, além de Robert Vaughn em sua caracterização deliberadamente caricatural de Stuart Chase, um ator decadente e canastrão. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 10 de agosto de 1977

 

Conspiração na Suíça

 

Jack Arnold é um artesão que por certo permaneceria anônimo, não fosse aquele às vezes meramente burocrático "nome abaixo do titulo" observado por Frank Capra em sua autobiografia. "Dirigido por..." ou "Realizado por..." são, em muitas ocasiões, simples formalidades utilizadas pelos produtores que controlam draconianamente os trâmites de realização e comercialização da sua mercadoria. O chamado diretor de cinema é muitas vezes um cidadão sentado numa cadeira, cumprindo formalmente o ritual de conversar com os atores, emitir ordens ao fotógrafo e o operador, gritar "câmera, ação!" e mandar cortar.

Esta é a impressão que nos dá o diretor Jack Arnold, de The Swiss conspiracy, que chegou a ser considerado um talentoso science-fictioner pelo seu anterior O incrível homem que encolheu e hoje articula apenas  uma  história que não passa de simples encadeamento de recortes de cartões-postais. Unindo as montanhas geladas da Suíça à segurança dos seus bancos, onde estão depositadas grandes contas secretas, o diretor apenas imprimiu imagens de um banal filme policial.

Na verdade, o que importa no filme é o desfile de astros de pequena grandeza, planos aproximados dos mimetismos executados por David Janssen - que do Fugitivo da TV  se transformou em perseguidor - Senta Berger, Elke Sommer, Ray Milland e outros atores de menor bilheteria. Nem mesmo as lições dos grandes mestres do cinema americano, que de uma história simples conseguiam fazer uma brilhante encenação, o diretor Jack Arnold demonstra ter aprendido alguma coisa. Uma idéia ruim para uma encenação ainda pior. Da alardeada Conspiração na Suíça não se produz mais - para continuarmos no lugar comum em que o filme se afunda — do que uma tempestade em copo d'água. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 15 de março de 1978

 

Dois tiras fora de ordem

 

De novo a dupla, melhor dizendo a trinca – já que o diretor E. B. Clucher não só faz parte do negócio como foi o seu criador – agora numa aventura tipo comédia pastelão-policial, como guardas no movimentado porto de Miami.

Modelo de fanfarronice bem-sucedida, esta programação provoca uma movimentação de público na Cinelândia: os habituais freqüentadores do Rex deslocam-se para o cinema Odeon. O que não representa nenhuma surpresa, uma vez que entre os golpes e os saltos dos kung fu e os socos e os pontapés exibidos nesta chanchada as diferenças são mínimas. Terence Hill - o magro loiro - e Bud Spencer - o gordo moreno - já fizeram de tudo no cinema: deram tiros de festim nas histórias do meio-oeste americano rodadas em Cinecittá, transformaram-se em bucaneiros nas terras da Colômbia e Peru no século XVIII, vestiram o hábitos de falsos piedosos sacerdotes nas plagas do Oriente e desta vez encarnam dois atrapalhadíssimos guardas da polícia de Miami.

Porém, nunca deixaram de ser o que sempre foram: dois picaretas desajeitados, cujo único mérito, neste aspecto, parece o ser de nem sequer querer enganar o público. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 22 de março de 1978

 

Explosão de violência

 

Visto conjunturalmente, Explosão de violência é herdeiro da tradição cultural americana de crença na eficácia e no carisma da ação individual. Embora não seja estranho ao cinema americano do passado - o repórter de A montanha dos sete abutres, de Billy Wilder, diz num outro contexto que "o drama coletivo não interessa, o que conta é o drama individual" - este tema parece voltar hoje expressando uma crescente inquietação do homem médio atual quanto à sua postura perante as grandes corporações, a estandardização do consumo e a  perda de eficácia da ação individual na sociedade de massas.

Inscrito neste painel, suas similaridades mais recentes estão em À queima roupa, de John Boorman, a história de um homem que decide se vingar destruindo uma poderosa organização. Num passado mais distante suas raízes estariam em Underworld USA de Nicholas Ray, filmado no fim da década de 40. A produção em questão, dirigida por Bob Clark, conta a história de um cidadão americano de classe média que presencia um crime e se vê ameaçado, junto com sua família, pelo mandante do homicídio, um gangster que está construindo um grande conjunto residencial.

Embora rarefeito pelo clima caricaturalmente expressionista de sua narrativa, Explosão de violência propõe a ação individual como alternativa à impossibilidade de atuação diante dos dispositivos legais de  repressão e controle da violência organizada. Ao não discutir as implicações sociais e políticas desta proposição, sua intenção se resume em dizer que a superação do medo à  violência está numa contrafração ainda mais violenta e aniquiladora. Em conseqüência, - no ultimo plano do filme -  e após desencadear e consumar a sua "explosão de violência", o personagem McBain contempla perplexo e solitário o produto acabado da sua obra: as ruínas do local onde seria erguida a "Cidade da confluência". (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 4 de maio de 1977

 

O cadáver assassino

 

A começar pelo titulo, O cadáver assassino, soi-disant uma comédia nonsense  sobre o casamento de um defunto, já se apresenta como uma óbvia redundância. Apoiado numa tradição de filmes, sobretudo ingleses, que procuram mesclar terror e ironia, tenta esboçar uma narrativa que vai buscar nestes filmes - produtos de uma escala industrial com ampla aceitação no mercado - os personagens e situações mais comuns ao gênero. Temos então, por exemplo, o castelo onde morava o falecido rico nobre inglês, os parentes interesseiros, o irmão perdulário, a irmã velhinha, a esposa desprezada e, num toque de nonsense, a noiva que se casa com o cadáver. Tal repertório de situações e personagens apenas repete as fórmulas mais banais, os estereótipos, as situações corriqueiras, o discurso mais repetido do gênero. A trama armada só se desenrola na medida em que a inteligência e sagacidade do - como o titulo em português do filme explicitamente revela - cadáver assassino entra em ação, e é diretamente proporcional à patetice e estupidez dos outros personagens, à exceção da suposta boa velhinha, representada por Elsa Lanchester, que caracteriza  o também notório personagem do lobo vestido em pele de cordeiro.

Enfim, além de apresentar novamente atores já conhecidos - que desfilam burocraticamente pelas seqüências - O cadáver assassino é apenas mais um exemplar entre as 4 ou 5 centenas de filmes estrangeiros exibidos anualmente no Brasil, a maioria de gosto e intenções duvidosos, contribuindo para aumentar a poluição visual e sonora de nossas telas. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 1 de maio de 1977

 

O espião sem amanhã

 

Tendo como cenário a velha Jerusalém e os campos minados da fronteira com a Jordânia, este filme parece pertencer a uma variedade de "cinema cartão postal" ou a uma forma de vacation films. Na verdade, toda a produção construída em torno do argumento serve apenas de pretexto para reafirmar a sua simples efemeridade: um divertimento digestivo e ocasional.

A câmera gira em torno dos atores, não como personagens que estão sendo interpretados, mas como arquétipos de um olímpico star system. As emoções — e Samuel Fuller já dizia que "cinema é emoção" — estão tristemente reduzidas a uma gesticulação quase hierática. Poderíamos falar, certamente, dos belos cenários do Oriente Médio retratados por intermédio de uma boa fotografia e isso se constitui naquilo que o filme parece basicamente propor: grandes planos do Muro das Lamentações, do Monte das Oliveiras o de aldeias palestinas emoldurando mais uma guerrinha particular entre a CIA e a KGB. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 11 de maio de 1977

O seqüestro de um oficial de polícia

 

Assistindo Un officier de police sans importance, na embaçada e escura projeção do cinema Ópera, tem-se a impressão de estarmos diante de um típico exemplar de um cinema inconseqüente. Um cinema cuja única preocupação parece ser a busca de urna fatia do mercado. Temas como a deliqüência juvenil — tratados em Pacto sinistro e Festim diabólico de Hitchcock, por exemplo — seqüestros e assaltos, no estilo de Um dia de cão, aparecem e se diluem numa encenação que utiliza estes elementos apenas como pretexto para fúteis maneirismos pirotécnicos de linguagem.

Tempos mortos e marcações sonoras de montagem, extraídas de Antonioni, percorrem a projeção como tiques nervosos que o realizador vai introduzindo, provavelmente para preencher o profundo vazio da história que está narrando. Longos movimentos de câmera, lentes de aproximação e exagerada deformação — cuja influência parece estar no estilo já diluído de Claude Lelouch — abrem e fecham planos e seqüências sem que se perceba qualquer relação com os acontecimentos do filme. Atores desfilam ao longo da exibição sem outra função a não ser compor um quadro de personagens, que o filme caracteriza como sendo todos negativos. Carros Citroën exibem as suas qualidades de potência e estabilidade, o que pode ser motivo para uma excelente merchandising. Enfim, tudo pode ser resumido na seqüência final: no único plano conseqüente do filme — um longo e sinuoso travelling — a câmera passeia por debaixo de um avião Constellation, enquanto os créditos vão anunciando os participantes, as entidades públicas, as firmas que colaboraram, etc. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 27 de fevereiro de 1977

Perseguidores sanguinários

 

A história, que não pode ser chamada  de extremamente original, é a de dois jovens que assistem por acaso ao assassinato de um policial, cometido pelo xerife de uma cidade petrolífera dominada pela Rockfield Oil, empresa dirigida peio velho Rockfield.

E é, não por acaso, exatamente na casa de Rockfield - representado por Will Geer - que o crime é cometido. Esta combinação de violência e interesses econômicos, corrupção e  necessidade de silenciar aqueles que podem fazer uma denúncia constituiria virtualmente o cerne do filme. O gosto pelo virtuosismo do culto plástico da violência, hoje transformado em conteúdo do cinema mais grosseiramente comercial, dilui as possíveis boas intenções contidas no argumento.

É bem verdade que, ao lado deste elemento, a narrativa está carregada pelos mais usuais arquétipos e estereótipos: o estilo James Dean, caricatural e redundante, expresso no tipo e representação de Stephen McHattie; o personagem do advogado Alex Warren - personificado por Eddie Albert - extraído das novelas policiais, além da notória figura do xerife, sanguinário e obsceno. Dados que comprometem o filme, amarrado na camisa de força do mais descarado estereótipo e da grosseira esquematização dos conceitos do bem e do mal.

Publicada no jornal O Globo em 28 de junho de 1978

 

Sérvulo Siqueira