Maciste no império chinês

 

As produções cinematográficas baseadas em fatos do passado tiveram a sua hora e sua vez até a  última década  quando, dentro da diversificação da produção hollywoodiana, muitos investidores se transferiram para a Europa. Sua continuidade, entretanto, não resistiu ao alto custo de produção e ao crescente modismo que levou a um consumo excessivo, o que desgastou o gênero.

Tardio exemplar deste surto em total declínio, Maciste no império chinês é uma estranha mesclagem de mitologia greco-romana com eventos históricos da Ásia, que articula de forma repetitiva um elementar balbucio de linguagem cinematográfica. As hipérboles cinematográficas, como os exageros de efeitos e recursos de linguagem, correm certamente por conta da má fé dos seus perpretadores, sempre interessados em alimentar a fantasia popular dos deuses e super-heróis e em, por exemplo, nos impingir Gordon Scott como o sucessor do famigerado Steve Reeves, o antigo gigante da Maratona de outras épocas. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 28 de setembro de 1977

 

Resgate fantástico

 

A experiência de diretor de documentários - realizados durante a Segunda Guerra - deve ter servido a Irvin Kershner para a realização deste Raid on Entebbe, segundo dos cinco filmes lançado este ano inspirados no resgate dos passageiros do avião da Air France, em Uganda. No primeiro, dirigido por Marvin Chomsky, a sobrecarga melodramática e sentimental obscurecia e diluía a compreensão das circunstâncias que cercaram a ação dos comandos, além do fato de que a transcrição da gravação de videoteipe para o celulóide implicou na  evidente perda da qualidade de imagem do filme.

Neste segundo revival de Entebbe, a alquimia dos elementos redunda em um resultado mais condizente com os objetivos técnicos, estéticos e comerciais do espetáculo. O argumento de ambos é basicamente o mesmo: o registro cronológico do embarque em Atenas até a ação final de resgate, ao qual o filme de Keshner acrescenta um espetaculoso desembarque dos reféns libertados, em Israel. A maior eficiência deste ultimo fica então por conta da capacidade de administração efetuada pela produção e direção dos vários setores relativamente autônomos nos quais se constitui o espetáculo cinematográfico.

Documentarista de guerra, Kershner distribuiu a decupagem do filme em três núcleos: a ação do seqüestro, as decisões políticas no gabinete do Premier israelense e os preparativos que culminaram com a intervenção do comando. Novamente aqui, predomina a visão etnocêntrica: a ótica é a dos vencedores, aos vencidos só resta o desespero de uma luta, de antemão, suicida. É durante a montagem da narração destes três núcleos que a direção articula com habilidade os elementos de suspense e dramatização do acontecimento.

Dispondo de três editores, o filme não cai na facilidade superficial do paralelismo, recurso que consiste em intercalar de forma cada vez mais aproximada a narração de eventos ocorridos em locais diferentes. Ao contrário, o tempo da ação é respeitado sem a manipulação deste tipo de elemento de fácil identificação emocional.

Cinema certamente mais de laboratório, de sala de montagem, a criatividade de Raid on Entebbe é estritamente vinculada aos limites de suas pretensões comerciais. Para tanto não falta evidentemente um elenco de astros, com Peter Finch em sua última aparição, e onde a melhor expressão é a quase desconhecida Marie Clare Costello. Atores que são conduzidos em uma mise-en-scène mais elaborada, onde se pode notar a presença de algumas câmeras na mão - hoje um elemento kitsch integrado ao cinema de espetáculo - por certo para dar ao espectador uma falsa e inquietante sensação de envolvimento com a ação do espetáculo. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 16 de novembro de 1977

 

Ursus, o terror de Kirghisi

 

Em exibição no cinema Rex em programa duplo, Ursus, O Terror de Kirghisi se inscreve num gênero muito cultivado pelo cinema italiano da década de 60: os filmes históricos com elementos extraídos da mitologia greco-romana. O diretor é Anthony Dawson, cujo único bom trabalho parece ter sido Dança Macabra, uma adaptação de dois contos de Edgar Allan Poe.

À exceção de alguns sortilégios de encenação, os ingredientes são os de sempre. Machismo e misoginia coexistem em mais esta aventura do herói grego Hércules, onde o difícil é dizer o pior: o filme que é exibido,a sala que o apresenta ou a platéia que vocifera o tempo todo. (SAS)

Publicada no jornal O Globo em 26 de janeiro de 1977

 

Vitória em Entebbe

 

 Menos de um ano após sua ocorrência, o episódio do aeroporto de Entebbe - quando comandos israelenses resgataram reféns judeus em poder de militantes da organização clandestina alemã Baader-Meinhoff e de  soldados ugandenses - transformou-se num rotundo fracasso cinematográfico. Primeiro filme de uma série de cinco inspirados no fato, lançado decorridos apenas oito meses do episódio, Vitória em Entebbe procura aproveitar os ecos ainda recentes do seqüestro e desvio de um avião da Air France para Uganda e da delicada operação que envolveu o resgate de mais de uma centena de passageiros. Contudo, no salto da realidade para a tela, frustraram-se todas as tentativas - se é que as houve - de um bom espetáculo.

Tributário de duas tendências que lhe são inerentes desde sua origem, o cinema nunca deixou de afirmar esta sua ambigüidade: as possibilidades mecânicas de captação do real, de caráter estritamente documental, e a capacidade de transfigurar este real com o objetivo de introduzir elementos ficcionais de envolvimento e fantasia. Uma e outra tendência se desenvolveram paralelamente ao longo de sua história, desde quando Lumière filmava a industrialização e Meliès narrava sonhos futuristas de viagens espaciais, que hoje  fazem a glória de várias produções européias e americanas.

Vitória em Entebbe não consegue fazer uma coisa nem outra. Aprisionado na camisa-de-força da concepção de que só há heróis e vilões,  representa os personagens dentro de uma perspectiva estereotipada já bem conhecida, sem lhes acrescentar nenhuma informação. Os derrotados, embora conquistem algumas vitórias, já estão irremediavelmente vencidos. Os vitoriosos se comportam quase sempre como se já fossem de antemão vencedores. Para o diretor Marvin Chomsky e seu roteirista, a História não é o palco de eventos onde se chocam toda uma gama de interesses econômicos, sociais, culturais, etc. mas um pretexto para alimentar sentimentos de autocomiseração.

Sem se colocar no nível do documentário - de que a análise das forças envolvidas e a descrição da operação militar desencadeada poderiam ser alguns dos elementos - o filme tampouco consegue examinar a fundo o drama humano dos seus protagonistas, estabelecendo-se numa perspectiva que chamaríamos de grosseiramente etnocêntrica. Num momento do filme, o Ministro da Defesa de Israel - representado por Burt Lancaster, um dos participantes do elenco famoso que emoldura a película- — declara que a guerra entre árabes e judeus já dura mais de cem anos. Vamos continuar esperando que o cinema consiga representar com fidelidade aos menos um período destes muitos anos de luta.

Publicada no jornal O Globo em 2 de fevereiro de 1977

Sérvulo Siqueira