A mais louca de todas as aventuras de Beau Geste

 

Três trailers, um documentário, um jornal da tela, várias propagandas e – finalmente! na tela do Metro Boavista - The last remake of Beau Geste de Marty Feldman, argumentista, roteirista, diretor (bom) e ator (ótimo). Quarta versão das aventuras criadas por P.C.  - uma delas no cinema mudo - além de duas outras ligeiramente inspiradas e que não conservaram o titulo, esta é certamente a mais crítica. Não só por se abater sobre o espírito e a cultura dos seus personagens como também por se servir de refilmagens anteriores, traçando um painel do filme de aventuras, seus heróis e anti-heróis.

Feldman é da geração de humoristas que, juntamente com Mel Brooks - com quem começou,  Gene Wilder e também Woody Allen - este numa perspectiva diferente - refazem a história do cinema e a ironizam para dela extrair uma veia cômica nova e original. Não tão original assim - já que Mack Sennett e Buster Keaton o faziam no mudo — mas revitalizada pelas novas leituras sobre personagens e estilos que o cinema, embora não tenha criado, mitologizou: Sherlock Holmes, Frankenstein, o gênero do faroeste, etc. E naturalmente, sua versão Beau Geste reflete essa posição, onde se estabelece a ironia sobre os velhos estereótipos do herói versus vilão, do happy-ending, do filme de seriado e a possibilidade de diálogo entre o cinema de hoje - sofisticado e pleno de recursos -  e o do passado, em preto e branco e com sua moral muitas vezes simplista e ingênua.

Um diálogo como o que se vê nesta bela seqüência do filme e que expressa o humor fino e poético do seu criador: ao entrar na zona de miragens do deserto, Digby Geste (Marty Feldman) encontra-se com Gary Cooper, herói da versão dirigida por William Wellman em 1939. Conversam os dois: Digby fuma um cigarrinho pouco ortodoxo que o deixa tonto enquanto Gary convida-o a esperar até o fim da história. Digby recusa e segue até um telão onde está escrito o letreiro The end, arrebenta-o e retoma sua caminhada no deserto, desaparecendo depois de deixar a zona de miragem. Um humor inspirado, sensível e poético, através do qual pode-se olhar o passado sem perder a consciência do presente.

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 22 de julho de 1978