Annie Hall: Máximas e trocadilhos

 

Woody Allen criou uma personagem à sua imagem e semelhança para melhor poder vendê-lo: o complexado judeu do Brooklyn, pequeno, inseguro e com um humor cético e negativista. Ao contrário de Jerry Lewis e de Groucho Marx -  humoristas igualmente judeus, em quem se inspira - que distilam uma carga explosiva e destruidora sobre valores estabelecidos, ele se volta para si mesmo e encontra nas neuroses a razão de sua não-adaptação. Carregando problemas de sua raça, seu personagem - quase o mesmo ao longo de seus filmes - é uma espécie de Portnoy, para lembrar Philip Roth, cômico e desajeitado.

Annie Hall, seu último filme, poderia ser considerado o melhor, o que por si só não representaria muita coisa. Na verdade, seu melhor trabalho foi dirigido por um outro diretor — Herbert Ross—o que revela mais das qualidades de entertainer do que de realizador de Allen. Herdeiro da tradição do show business americano — Milton Berle, Bill Cosby, entre outros—ele é mais um animador de auditório, um personagem que poderia ser melhor aproveitado, talvez como Arthur Penn fez com seu excelente Mickey One, o artista que desejava "viver a vida com cautela".

No entanto, a história do filme de Penn é uma parábola dramática, quase trágica, sobre a impossibilidade de um homem sair do seu círculo, um cinturão invisível que se fecha sobre um cotidiano cada vez mais mesquinho enquanto que o artista - misto de cômico, cantor e ator dramático - se refugia no sonho de uma vida sem adversidades. Woody Allen faz deste universo concentracionário físico e mental o instrumento para seu humor complacente e, num certo sentido, de autocomiseração. O trágico-dramático se faz tragicômico e deságua numa máxima conformista e autocomplacente de que "é preciso conviver com as nossas neuroses".

No caso, a autocomplacência não está na ética, que é o princípio que orienta um segmento da psicanálise, aquele considerado mais ortodoxamente freudiano. A auto-indulgência estaria sobretudo em dois aspectos: o estabelecimento de uma moral quase como um primado metafísico, uma verdade absoluta de que "o segredo é conviver com as nossas neuroses" e, principalmente, o que esta posição implica; a recusa em procurar fora de si as razões de suas inquietações.

O personagem de Arthur Penn procurava romper seu círculo fechado rasgando a capa que a sua falsa máxima filosófica encobria e enfrentando o desconhecido que manejava a forte luz de spot que o cegava. Nesta altura, com todas as luzes da cidade às suas costas, o que importava é que nenhuma pequena e mesquinha moral subsiste no momento em que a vida é colocada diante do seu grande desafio. Em sentido oposto, Woody Allen é incapaz de se libertar da camisa-de-força de sua vã filosofia, e sua moral — que se esforça em pensar o mundo — termina se revelando amarga, sem conseguir superar o aforisma. O drama quase trágico de Penn revelava uma visão mais otimista do mundo ou ao menos a possibilidade de enfrentá-lo; já o humor amargo de Allen se demonstra cético e exageradamente sério.

Há, entretanto, um outro lado do filme. Ele se constitui num painel que poderíamos chamar de retrato da cultura popular americana, extraído dos seus meios de comunicação de massa. O pequeno judeu complexado encarnado pelo ator e diretor, refugiado no humor cáustico, estabelece duas Américas: a nova-iorquina dos intelectuais herméticos e sofisticados, dos professores que fazem retórica na porta dos cinemas, dos jogos de tênis em quadras cobertas, do trânsito alucinado e da nostalgia do sol que no outro lado da América, em Los Angeles, Califórnia, torna as pessoas mais descontraídas e saudáveis - certamente mais fúteis para o angustiado personagem de Allen - heróis do cinema e da música dos EUA que têm a ventura de morar em belas casas plantadas numa efervescente natureza.

Dualidade que seu personagem não consegue resolver e que o faz refugiar-se numa quase autobiografia, a história de um menino judeu de classe média baixa que morava sob uma montanha russa, e no seu confessado amor por sua ex-mulher — também atriz do filme — Diane Keaton. Como uma tentativa de recuperar o espírito demolidor do cinema cômico verbal americano — ainda hoje o atributo de Groucho Marx — Annie Hall é uma coletânea de aforismos, trocadilhos e palavras de espírito narrada por um animador de auditórios. Comportaria certamente outras leituras críticas diferentes desta. Aqui, procurou-se descartar tentações mais fáceis pois, como dizia prudentemente Alfred Hitchcock, "o crítico não deve fazer trocadilhos, para evitar os aforismas do diretor.

 

Sérvulo Siqueira

 

Matéria publicada no jornal O Globo em 20 de março de 1978.