À Flor da Pele

 

Entre 1969. quando Consuelo de Castro escreveu a peça e 1976, época em que Francisco Ramalho adaptou e dirigiu o filme, não apenas sete anos transcorreram. Desse tempo, Ramalho diz que "todos os nossos sonhos da minha geração foram sepultados". Dessa época o filme conserva apenas uma vaga lembrança, manifestada no filme curto que os alunos da Escola de Arte Dramática de São Paulo assistem numa projeção particular. Um pequeno filme reminiscente de um momento heróico do cinema paulista e brasileiro. Nele, uma câmara ágil e flexível descortina uma seqüência agitada em um matagal.

A distância entre o momento em que a peça foi escrita e o longa-metragem foi realizado parece estar contida na inserção deste pequeno curta de menos de cinco minutos. Ao longo deste tempo, o cinema brasileiro procurou se ajustar a um movimento geológico de adaptação ao leito de um rio sem muitas quedas d'água nem corredeiras. De À For da Pele pode-se dizer que participa deste processo até o limite de um discurso que está muito próximo do acadêmico.

Talvez partindo do pressuposto do "específico fílmico", Ramalho procurou na adaptação da peça desteatralizar a sua encenação. A partir dos dois únicos personagens postos em cena criou outros, que já eram referidos na relação entre o professor e a aluna, e acrescentou seqüências de rua, parques, bares, etc. Modificou o final, que terminava com o suicídio da aluna, por um outro que coloca os personagens cada um seguindo o seu caminho. Modificação feliz, a substituição de um desfecho trágico por um mais realista, certamente.

Mas onde Ramalho, por certo, cometeu o seu mais grave erro, foi na redução dos conflitos existentes entre Verônica Prado (Denise Bandeira) o Marcelo Fonseca (Juca de Oliveira) a um nível meramente sentimental e carregado de subjetividade. Com isto seu discurso se tomou mais próximo do academicismo e se reduziu, à exceção de poucas seqüências das quais a mais importante é a da representação de Hamlet, a uma sucessão redundante de planos de ligação e raccords entre os intervalos das cenas de alcova – com o casal passeando pelas ruas de São Paulo – que são pontuados pela música de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro. Esta estratégia levou aos excessivos 620 planos do filme, um esfuziante exercício de mise-en-scène acadêmica.

Em meio a estas características, "A flor da pele" conserva um certo tom lírico, que se salva dentre as pornochanchadas da "Boca do lixo" paulista e uma sinceridade em seu discurso às vezes equivocado. E traz em seu elenco a interpretação de Ewerton de Castro e de Denise Bandeira, uma atriz que realmente viveu o seu personagem com o sentimento à flor da pele.

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 25 de maio de 1977