Dona Flor e Seus Dois Maridos

 

Realizado em 1976 durante a ditadura dos generais do Brasil e ambientado na atmosfera social e psicológica da ditadura de Getúlio Vargas (1930- 1945), Dona Flor e seus Dois Maridos* é uma fábula que conta de forma irônica as aspirações econômicas e as fantasias sensuais de uma mulher burguesa.

Na época de sua realização, embora o jogo e o cassino já tivessem sido abolidos, o carnaval e uma relativa liberalidade nos costumes continuavam a ser características marcantes do nosso modo de ser. O imenso sucesso popular do filme – que o transformou até há pouco tempo na produção com o maior número de espectadores na história do cinema brasileiro – pode ser creditado à sua habilidade em combinar os elementos mais especificamente nacionais e populares da nossa sociedade, encarnados de forma exemplar no triângulo amoroso entre a sensual doceira Dona Flor (Sonia Braga), o conservador farmacêutico Teodoro (Mauro Mendonça) e o aventureiro e nada convencional Vadinho (José Wilker).

Ao se utilizar da fábula criada pelo escritor de formação comunista baiano Jorge Amado – adaptada ao cinema por Leopoldo Serran e Eduardo Coutinho – o filme de Bruno Barreto revela como a fantasia e a religiosidade tem se constituído – ao longo da história – em um instrumento ao mesmo tempo de libertação e alienação dos brasileiros diante das condições sociais, econômicas e morais que lhes são impostas.   

Sua aceitação popular representou também a consolidação de uma linha intermediária para o cinema brasileiro, equidistante dos filmes políticos às vezes superficiais e panfletários da época e do grotesco das chanchadas e pornochanchadas, estimuladas pelo governo militar como válvula de escape à censura do regime.

Nos dias de hoje, Dona Flor poderia ser considerado pelos novos realizadores do nosso cinema como uma referência de boa qualidade técnica – especialmente pela interpretação dos seus atores, a iluminação e fotografia de Murilo Salles. a cenografia de Anísio Medeiros e a música de Chico Buarque de Holanda e Francis Hime. Ao mesmo tempo, sua recuperação do rico repertório fabulístico contido na literatura brasileira, tarefa ainda pouco empreendida pelos nossos meios audiovisuais, estabelece um paradigma a ser seguido na busca de um público que o cinema nacional perdeu nos últimos anos.  

 

Sérvulo Siqueira

 

* Veja também sobre este filme aqui.