Brasil bom de bola 78

 

Às vésperas da XI Copa do Mundo, um retrospecto da participação do Brasil na competição e suas atuais possibilidades de sucesso, montagem de jogos do passado, gols antológicos e — como o futebol incita a paixão nacional — a voz do povo. Dos alardeados cento e tantos milhões de técnicos opinam alguns, entre torcedores e analistas especializados, sobre as marchas e contramarchas da seleção de Coutinho. Da apresentação — nos idos de março — até a última partida internacional contra a Tchecoslováquia, os experimentados câmeras do Canal 100 acompanharam o instável périplo do time canarinho.

Com argumento e texto de Carlos Leonam, direção e roteiro de Oswaldo Caldeira, responsáveis pelo anterior Futebol total sobre a Copa de 74, Brasil bom de bola 78 levanta algumas indagações, procurando corresponder à opinião popular: é justa a barracão de Marinho e Paulo César, qual é a situação real da forma física de Reinaldo, são realmente novas as mudanças táticas de Cláudio Coutinho? "Voz do povo, voz de Deus", o futebol — constituindo-se no esporte de massa brasileiro — desperta as paixões clubísticas e estimula os interesses políticos e econômicos.

O ensejo da Copa, que começa amanhã, reativa então a memória nacional — que em se tratando deste esporte permanece sempre latente — e o filme procura recapitular implicitamente a lembrança dos desalentos de 50, 54 e 66 e a euforia das vitórias de 58, 62 e 70. Entremeando estas lembranças com a preparação da nossa seleção, sua conclusão tende — como a alma do povo — para a confiança na mística da capacidade individual do jogador brasileiro; na crença de que Rivelino vai, enfim, mostrar todo o seu jogo; que os joelhos de Reinaldo vão poder enfrentar as prováveis botinadas dos adversários; que Zico vai ser o mesmo goleador do Flamengo e que até, quem sabe?, Edinho não levará tantas bolas nas costas e talvez de suas desordenadas arrancadas possa nascer alguma coisa produtiva.

Por outro lado, Brasil bom de bola 78 é um filme e, como tal, poderia ter aprofundado uma realidade que o registro das partidas nem sempre revela: o clima das concentrações e dos vestiários, o universo mental e psicológico dos jogadores — de quem na hora certa vai depender a vitória — a personalidade dos cartolas, do técnico e de outros membros da Comissão Técnica. Talvez isto reduzisse as possibilidades comerciais do trabalho mas poderia fornecer outros momentos como o daquela inquietante seqüência na boca do túnel do Maracanã, que capta a entrada dos jogadores em campo para a sua última partida preparatória antes da Copa, contra a Tchecoslováquia.

 

                                                                         Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O GLOBO em 31 de maio de 1978