1900 de Bertolucci: o filme político e o cinema espetáculo

 

Com as benesses relativas da Censura — que mesmo assim cortou três seqüências importantes da obra - tem seu lançamento previsto pára a próxima segunda-feira, dia 25, o painel da primeira metade deste século, Novecento, realizado pelo cineasta italiano Bernardo Bertolucci. Sua exibição permitirá ver, senão pela primeira vez, certamente um dos melhores casamentos do filme político com o cinema de espetáculo. E, para o público brasileiro, filme político é algo que há muito tempo foi banido das nossas telas, seja pela ação da Censura, seja pelo acomodamento da autocensura de diretores nacionais — engordados por ótimas mordomias de órgãos oficiais.

Desde que o cinema de espetáculo retomou de assalto os grandes bordereaux de bilheteria, alimentado por grandes financiamentos de capitais das multinacionais do cinema, e o filme de produção independente da década de 60 se entregou à tentação do divertimento de consumo mais fácil ou se transformou em militante político e cine experimental, foi criado o espaço para uma nova variante que apresentasse uma outra face ao panorama cinematográfico mundial. Ela  surge com 1900, produção reunindo um conglomerado de capitais italianos, franceses, alemães e principalmente americanos, que em quatro anos — dois para escrever o roteiro e preparar a produção, quase doze meses para filmar e mais de um ano de montagem — proporcionou à Bertolucci as condições de realização do seu épico da primeira metade da história italiana deste século.

Um acontecimento quase sem precedentes, pois que o diretor declara que sua obra vê este século como o da "morte do patrão", posição ideológica que não pode ser considerada afim com a visão que do mundo têm os seus produtores. Mas que não pode ser considerada incoerente, quando se sabe que a ideologia do espetáculo é o dinheiro e seus melhores executivos têm sabido sempre buscar, mesmo em autores de esquerda, o tônus para a revitalização constante de seu negócio. Bertolucci, por sua vez, com o seu discurso preocupado com o engaja-mento político e a análise do comportamento fascista — seus filmes anteriores mostram isso, inclusive aqueles não exibidos no Brasil — é um narrador que tem sabido dosar suas convicções ideológicas com os melhores recursos do cinema de espetáculo.

Sua vitalidade narrativa, que combina com grande habilidade a influência clássica — de um Visconti, por exemplo — com c descontínuo dramático e o impacto moderno de Godard ou Glauber Rocha, sua capacidade de alternar uma precisa recriação de ambientes de época com o improviso de uma seqüência criada no momento e rodada em som direto, o que constitui um estilo renovador no cinema, cabiam perfeitamente aos propósitos daqueles que fazem do cinema uma das grandes indústrias de espetáculo de nosso tempo. Entretanto esta combinação, que não se deu sem muitas arestas e algumas incompatibilidades, nem sempre se mostrou conciliável. Os produtores americanos e distribuidores mundiais de Novecento remontaram a obra para lançamento no mercado americano e a reduziram de cinco horas e 20 minutos — sua versão original — para quatro horas e 30 minutos, tempo com o qual ela também será exibida aqui. Bertolucci protestou muito, mas depois pareceu conformado e terminou afirmando que a remontagem era até melhor que a versão original. Seria bom lembrar que a versão americana foi supervisionada pelo autor e muitos que viram a cópia original acreditam que a redução não eliminou ou reduziu o valor da obra.

O que provavelmente poderá fazê-lo são outras condições nas quais ela será exibida no Brasil: a sua divisão em duas partes — a segunda parte só será lançada, quando praticamente a receita da primeira tiver sido esgotada — a dublagem em inglês com a qual o filme está sendo lançado no mundo todo e, no caso todo especial do Brasil, os sempre grosseiros cortes que a Censura, com sua tesoura moralista, impôs ao filme.

Quanto à divisão do filme em metades, houve até um jornal que noticiou que a liberação da película tinha sido negociada como uma compensação para uma determinada quantidade de filmes retidos na Censura: liberava-se o Novecento e não se falava mais no assunto. (Não fora o filme, é claro, lançado por uma companhia americana!) Novecento podia então ser dividido em dois, o que compensaria os prejuízos pela não-liberação dos outros, comentou-se. Afinal, não estará longe o dia em que uma obra poderá ser vendida em minutos ou metros e, se observarmos bem, esta prática já começa a se introduzir na televisão. Como está claro que a sua fragmentação em duas, três ou mais partes só poderá trazer mais dinheiro, com isso só quem estará deixando de ganhar  é o espectador, que não terá a visão de conjunto do nosso século que certamente Bertolucci pretendeu imprimir ao seu trabalho.

Outro ponto é a dublagem em inglês, vil costume que desgraçadamente se propagou no cinema internacional a partir do crescimento cada vez maior dos oligopólios das empresas americanas de distribuição mundial. Mesmo quando não estão produzindo, estas empresas compram ou se associam a muitos filmes, já concluídos, para sua comercialização em escala mundial. E terminam impondo seu rótulo, que não se resume à marca de apresentação, mas contamina o filme como um todo, fazendo parecer que o inglês é a única língua falada no mundo, além de desfigurar um trabalho que tem no  componente fonético e acústico um elemento profundamente significativo do seu discurso. Na verdade, analisado mais a fundo, este é mais um dos artifícios utilizados pela máquina americana de distribuição para internacionalizar a 7ª Arte a partir de um padrão de qualidade artificial — filmes a cores, reconstituições luxuosas, atores famosos e uma linguagem convencional — que o cinema dos países subdesenvolvidos não consegue atingir e que acaba por eliminar a produção independente.

Finalmente, estamos diante de mais uma desfiguração: aquela criada pela cunha da nefasta Censura e que representa de forma infeliz a antropofágica contribuição tupiniquim do obscurantismo à obra de Bertolucci. Desconhecendo o espírito da obra, os censores se prenderam aos seus aspectos morais e exerceram o  kaputt sobre cenas de sexo e consumo de tóxico. Numa delas, uma prostituta vai para a cama com o patrão Alfredo Berlinghieri e o camponês Olmo Dalco, e põe a mão nos seus órgãos sexuais. Noutra, num cenário art-nouveau em plena década de 20, o jovem Alfredo se extasia experimentando a última maravilha descoberta pela burguesia e que lhe é trazida pela sua futura mulher Ada e o tio Ottavio: a cocaína. Mais tarde, em seu casamento, tio Ottavio irá ofertar ao casal um belo cavalo, alvo como a neve, que terá o nome do pó branco. O filme mostra um quadro bem elaborado por Bertolucci e seus dois co-roteiristas, para caracterizar o clima de dissolução em que o herdeiro Alfredo se arrastará, obrigando-o a se amparar na violência fascista de Attila, que declara num determinado momento do filme: - Nós, os fascistas, servimos hoje à burguesia como um cão policial. Amanhã, quando bem alimentados, vamos devorar os nossos donos.

Acredita-se que a 2a Guerra Mundial e as forças aliadas não teriam deixado isso acontecer. No entanto, o final do filme é ambíguo: no momento em que os partigianos armados estão prontos a desfechar um processo revolucionário — com a queda do fascismo e a morte de Mussolini — a chegada dos aliados obriga-os a entregarem as armas e a suspenderem o julgamento do patrão, colaboracionista dos fascistas. Neste sentido, Bertolucci declara que o tema do filme, como o da "morte do patrão", pode parecer utópico à primeira vista — já que o patrão e o camponês continuarão brigando por toda a vida — mas que "é correto num nível simbólico". E conclui que "o patrão morreu, mas continua vivo", como diz, ironicamente, um personagem no final da história.

Escrito por Bernardo Bertolucci, com seu irmão Giuseppe e Franco Arcalli, também montador do filme, Novecento é interpretado por um elenco internacional: o patriarca Alfredo Berlinghieri pelo ator americano Burt Lancaster; seu contemporâneo, o camponês Leo Dalco pelo também americano Sterling Hayden; o neto Alfredo pelo ítalo-americano Robert de Niro e seu contemporâneo camponês, Olmo Dalco pelo francês Gerard Depardieu. Ada, a mulher de Alfredo é representada pela atriz francesa Dominique Sanda e o fascista Attila por Donald Sutherland, ator canadense.

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicado no jornal Semanário 1900 Nacional em 20 de setembro de 1978.